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Dom Vicente Costa: Das cinzas à luz

DOM VICENTE COSTA - opiniao@jj.com.br | 17/03/2018 | 20:00

“Dai-me de novo um espírito decidido” (cf. Sl 51,12). Em diversas culturas, as cinzas têm um significado profundo e relevante, que ajuda os povos em suas reflexões e também em sua organização familiar e social. De modo geral, as cinzas remetem à certeza de que a humanidade tem suas limitações e fraquezas. O ser humano é um ser que está sempre diante de dificuldades e desafios. A vida humana é predominantemente marcada pelo dinamismo e criatividade que cada pessoa precisa ter para realizar seus ideais e superar os medos que rondam a todos. Ninguém pode engavetar seus sonhos no armário de seus medos. Em tudo na vida, precisamos ter prudência e cautela, mas não a timidez e o medo. Se nos deixarmos mover pelas inseguranças e dúvidas, nos apequenaremos diante das ondas do mar da vida. É sempre bom nos lembrarmos de que ótimos marinheiros se formam nas águas agitadas pelas tempestades que, muitas vezes, os surpreendem nas noites escuras da própria história.

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O mundo vive um momento muito delicado de intolerância, com sinais claros de que muitos povos têm disposição de enfrentar os conflitos com a força da guerra e das armas. Muitos renunciam à beleza do diálogo, do respeito, da paz e da harmonia e optam pelo caminho da violência. Mais do que nunca precisamos redescobrir e difundir a cultura da paz, da vida e da concórdia entre os povos e nações de todo o mundo. Na era digital em que vivemos, também se faz necessário implantar a cultura do respeito ao novo e ao diferente. De fato, precisamos ressurgir para uma vida nova e um tempo novo. Mesmo diante dos maiores obstáculos, é necessário manter a chama da esperança sempre acesa em nossa vida. Não podemos cair no desânimo e muito menos no pessimismo. Dentro de nós há uma força sobrenatural que nos capacita a termos um coração determinado e um espírito decidido. E é assim que não nos prenderemos a discursos bonitos e relevantes que conclamam a sociedade e a todos nós à superação da violência, mas, muitas vezes se esquecem da pessoa humana, do indivíduo. Na verdade, o mundo, a sociedade e a humanidade podem sim superar a guerra, a intolerância e a violência, mas a partir de uma nova atitude de cada pessoa.

De fato, a transformação do mundo passa pela mente e pelo coração de cada cidadão. É admirável a atitude de Jesus, que sempre priorizou o encontro pessoal e a relação interpessoal com seus discípulos e com as pessoas que ouviam e seguiam suas mensagens. Jesus continua sendo o “Mestre da Vida” e o Princípio da cultura da paz, que olha nos nossos olhos e nos chama a cada um pelo nome. O “vinde e vede” (Jo 1,39) continua sendo atualíssimo nestes dias. O chamado “vem e segue-me” (Mt 19,21) é eloquente e sugestivo para o nosso tempo. O chamado é sempre individual, para que o indivíduo atue e se faça presente na sociedade, fazendo a diferença, sendo sal, luz e fermento no meio da massa (Mt 5,13-16).

DOM VICENTE COSTA é bispo diocesano de Jundiaí


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