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Importando o atraso

Ariadne Gattolini | 29/09/2019 | 10:24

Antigamente, o estranho movimento contra a Ciência era uma singularidade americana. Há pouco tempo, infelizmente, essa corrente chegou ao Brasil e impulsiona hoje a recusa da vacinação, o negacionismo do efeito estufa e o absurdo terraplanismo.
Os resultados são nefastos. Em São Paulo, a recusa da vacinação trouxe de volta a epidemia do sarampo, doença que já estava praticamente erradicada. Em razão do negacionismo, que concorreu para a protelação de medidas radicais e urgentes no enfrentamento do efeito estufa, alguns danos severos já estão ocorrendo, como o aumento do nível do mar, furacões mais violentos e o desaparecimento das geleiras.
A raiz desse comportamento está na crença em teorias conspiratórias. A filha de um amigo levou seu bebê para ser vacinado e uma mulher veio lhe falar, confidencialmente, que quem “estava por trás” da vacinação era um bilionário americano em razão de um plano mirabolante para diminuir a população mundial.
A ativista mirim sueca Greta Thunberg é, por sua vez, vítima de outra teoria conspiratória, de contornos mundiais. Quem “está por trás” dela, no entanto, muda, de acordo com cada versão; ora é o bilionário George Soros, ora um bilionário sueco, e por aí vai.
Teorias conspiratórias dão aos que nelas acreditam a satisfação de se sentirem mais espertos do que o comum dos mortais, por saberem “quem está por trás” seja o que for. Bem diz o ditado que a esperteza, quando é demais, engole o dono.
A maior vítima dessas teorias conspiratórias é a Ciência, que, no mundo polarizado em que vivemos, passa a ser “politizada”: o efeito estufa seria da esquerda e o negacionismo da direita.
Ora, a Ciência, em si, não tem ideologia. Tem comprovação factual. No caso do desequilíbrio climático, por exemplo, a Nasa declara que a probabilidade de os gases produzidos pela ação humana estarem criando esse efeito é de mais de 95%.
Domingo passado (22), o relatório da Cúpula de Ação Climática das Nações Unidas mostrou que já estamos sofrendo, conforme previsto, os resultados do aquecimento com o aumento de nível dos oceanos, a diminuição das geleiras e a poluição por carbono que se acelerou.
Um cientista americano começa um livro recém-publicado sobre as mudanças climáticas com uma advertência: “É pior, muito pior, do que imaginamos”.
Não é por outra razão que Greta Thunberg é precisa em sua mensagem: “Ouçam os cientistas. A casa está pegando fogo”.
Não há tempo a perder. O que está em jogo é a vida dessa nova geração, de nossos filhos e netos. Se não tomarmos providências para valer agora, eles irão enfrentar um mundo hostil.

MIGUEL HADDAD é advogado, foi deputado e prefeito de Jundiaí


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