Opinião

O antipresidente


Um presidente é alguém que se põe à frente de instituições sociais ou políticas, que lidera, que comanda, que dirige, que exerce o poder do qual está investido para conduzir os rumos do ambiente que preside. Recebe dos eleitores uma espécie de autorização para representá-los no comando das organizações. Dito em outras palavras, um presidente manda porque tem poder para mandar, fazendo-o de acordo com as regras da instituição que está sendo presidida. E assim também o é no caso do presidente da República, claro. Embora não seja comum, pode ocorrer de um presidente não conseguir exercer o seu papel com liderança, altivez e equilíbrio e várias são as razões deste fenômeno. Vão desde uma total ausência de vocação para o cargo, passando por falta de amparo dos agentes que formam sua base de apoio, chegando a um vazio de compreensão cognitiva sobre a relevância do alto posto ocupado. Essas e outras possibilidades que poderão estar presentes geram uma conclusão: o eleito para presidir não tem capacidade existencial de manejar o poder que lhe foi confiado pelo voto alheio. Não lidera, não comanda e não conduz, por faltar-lhe sensatez e tirocínio no plano de sua ação política. Dentro do macro universo institucional de uma república presidencialista, pode-se dizer que um presidente com essas características não é um "estadista". Mas o problema ainda pode ser mais grave. É o que ocorre quando um presidente com esse perfil opta por conduzir as próprias atitudes de maneira contrária ao que minimamente se espera de um alto mandatário. Quando isso acontece, aos poucos vão sendo revelados atos concretos que denotam que o poder de presidir sofre uma metamorfose em atos de não presidir. Daí então surge um antipresidente: uma espécie mal acabada de anti-herói que não se sente constrangido pelos dados objetivos impostos pela realidade. Ao contrário, revela sem qualquer pudor o vácuo de virtudes que são próprias de um presidente e que formam a matéria-prima para bem governar. O problema se torna mais cáustico em momentos de crise, ainda mais quando a crise é humanitária e planetária. Ilustre torcedor do XV de Jaú, Zé Nabuco Filho sempre me dizia: "na crise, coma um quilo de sal com outrem e lhe conhecerá o caráter". Abstraindo a essência salgada da metáfora, percebe-se que a descompostura de um antipresidente em momentos de crise faz surgir outros líderes, que acabam por preencher o vazio de comando. A mídia internacional identificou um antipresidente e está carregando nas tintas para ridicularizá-lo. Mais um complô "comunista"? Não creio! GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado, professor da Fadipa, presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro.

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