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A 1ª volta da Ilha Vitória

LICIANA ROSSI | 21/09/2019 | 07:30

Fui convidada para o desafio da 1° Volta a nado da Ilha Vitória, a uns 35 km de Ilhabela, pelo meu amigo João Paulo Mazzei.Aceitei de cara, afinal, volta numa ilha era algo novo para mim. Imediatamente comecei a me preparar. Nem mesmo os dias frios do inverno me fizeram perder os treinos, pois estava muito focada neste desafio, cujo slogan era: “Você não ganha uma medalha de participação, você vive uma experiência memorável”.

No dia da prova, o tempo mudou, estava frio, chuvoso e teríamos 3 horas de barco até a ilha. Chegando lá, a água estava gelada, me joguei e saí nadando. Segui vencendo a correnteza, com força e vontade, porém, de repente, me vi nadando sozinha. O vento piorou, o mar começou a bater muito e o desafio tomou proporções de sobrevivência e tive que lutar com minha cabeça para manter a calma e o foco, pois era o pior mar da minha vida.

Normalmente eu nado rezando, meditando e agradecendo. Neste dia eu apenas mantrei assim: “Você queria isso, você treinou para isso, então nade”.

Os meus instintos mais primitivos vieram à tona e me sentia uma guerreira lutando contra as ondas, bebendo muita água salgada, mas muito focada em terminar aquilo que fora começado.

Eu pensei em desistir após nadar quase duas horas sozinha. Deu medo e nesta hora eu chorei. Eu nunca havia desistido de uma prova no mar, seria a primeira. Eu estava cansada de engolir tanta água, até que avistei um barco de apoio, fui nadando até ele e, quando eu estava perto, ele resgatou outro nadador e foi embora. Avistei então um caiaque, era um menino, o Tito, que me disse, força, falta meia hora para você terminar a volta da ilha. Perguntei se eu era a última e ele me disse que mais da metade havia desistido pelas condições do mar. Então ele me arrumou um gel energético, me deu água e segui mais forte do que nunca para terminar meu desafio. Amparada também por outros nadadores, completei a prova. Minha vontade era de chorar de emoção.

Foi algo inédito passar por uma situação tão desafiadora sozinha, dependendo não apenas da minha força física, mas da minha força mental, do meu foco e da minha fé que daria tudo certo. E esta experiência se tornou memorável, como o slogan prometia, numa prova em que limites foram testados. Fomos provados pela Natureza e sua força suprema. A nós só resta respeitá-la.

Dias depois assisti uma palestra do meu amigo Claudinei Reche, em que foi citada a seguinte frase: “Coragem sem autoconhecimento é negligência. Coragem com autoconhecimento é superação”.

Fiquei com ela na cabeça pois foi exatamente isso que aconteceu. Eu sabia o que poderia aguentar física e mentalmente. Por isso, parti para um autodesafio, mas o autoconhecimento me permitiu acreditar que eu era capaz. Depois que consegui lidar com meus medos, consegui ter a coragem que precisava para sair daquele mar revolto sozinha, pois nem os barcos conseguiam chegar onde estávamos. Só tive dó do meu marido que passou por quase 3 horas de aflição, chegando a resgatar 7 nadadores.

Como eu treinei tudo isso? Como eu tive tamanho autocontrole? Através do esporte, da meditação, da fé e da vontade de viver. Apesar do perrengue, eu me sentia feliz por estar ali. A gratidão opera milagres. Hoje eu me sinto com uns 15 centímetros a mais de altura, tamanha minha coragem e realização pessoal e sou, sem dúvida, outra pessoa após esta experiência. Meus limites agora são outros. Muita saúde a todos.

LICIANA ROSSI é educadora física formada pela ESEF Jundiaí; pós-graduada em treinamento físico pela Unicamp e ginástica corretiva pela FMU-SP; exercícios corretivos pela Academia Nacional de Medicina Esportiva – NASM/USA; CHEK Practitioner nível 2 Califórnia/USA; Holistic Life Style Coach/CHEK Institute/USA.


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