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A astúcia e o malandro

GUARACI ALVARENGA | 12/07/2019 | 07:30

Sempre foi uma divertida pessoa, este saudoso companheiro. A bem da verdade, os tempos eram outros.

O sistema bancário não tinha a alta tecnologia dos dias atuais em que as informações são prestadas em tempo presente. Nem sem pensava em criar este cruel arquivo de devedores duvidosos. O cheque era respeitado e valia como moeda corrente. Servia-se na vida de uma fina astúcia. Muitas vezes se confundia com os personagens que criava. A sua veste preferida: habilidade em enganar. Persistia, todavia, uma constante situação contra a sua alegria e exageros, o danado do dinheiro sempre em crise com seu bolso. Nestas ocasiões se socorria da velha malícia. Certo dia levantou-se por volta do meio dia.

Tomou um refrescante banho. Fez a barba. Passou uma perfumada loção no rosto. Vestiu sua melhor roupa. Camisa engomada. Sapatos engraxados. Revigorou-se com meio suco de laranja. Pensou nos gastos e nas dívidas que já vinham atrás. Saiu de casa. Cruzou o agitado centro da cidade. Passou em frente a Catedral, fez o sinal da Cruz. Chegou no conhecido escadão, na J.J. Rodrigues. Ali existia um ponto de caminhões que faziam carretos. Entrou no primeiro veículo da fila. Cortês, cumprimentou o motorista com um aperto de mão. Mandou tocar para São Paulo. Na grande Capital logo avistou um comércio de ferro-velho. Ajeitou o cabelo pelo retrovisor e aproximou-se do comerciante do local.

Mostrando experiência no negócio, perguntou pelo preço da sucata: “cinco reais, meu patrão, preço de ocasião”, respondeu o vendedor. Portou-se como bom comprador, não pechinchou no preço.

Determinou carregar o caminhão. Carregamento feito emitiu um cheque cruzado para deposito. Voltou-se para o motorista e mandou tocar para o interior. No trevo de Americana decidiu pela cidade. Logo avistou um depósito de ferro-velho. Ofereceu a carga. O preço máximo que conseguiu: três reais o quilo.

Não teve dúvidas: descarregue a sucata. O bom motorista do caminhão ficou sem entender nada.

Achegou-se dele e disse em voz baixa: “o senhor está perdendo dinheiro, comprou por cinco e está vendendo por três reais o quilo da sucata, é prejuízo certo!” O astuto companheiro não se embaraçou: sossega meu bom rapaz. Quem está perdendo dinheiro não sou eu, mas quem recebeu “o meu cheque”… lá na Capital. Retornaram. Hora de acertar o preço do carreto. “quanto é o serviço, meu bom motorista”.

É duzentos reais pelas duas viagens. “Retirou o talão de cheques do bolso. O motorista, neste instante, suou frio e não se conteve: “o doutor não vai me pagar com cheque, eu tenho filhos para sustentar, pelo amor de Deus!!!

GUARACI ALVARENGA é advogado.
E- mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br


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