Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

A boca de Bolsonaro

CARLOS HENRIQUE PELLEGRINI | 27/02/2020 | 05:22

Ao Capitão Jair Bolsonaro, com o fardo da Presidência da República, cabe exercer o poder delegado pelo povo de maneira soberana, protocolar e com a inevitável contrapartida da onerosa responsabilidade partilhada: toda vez que ele vocifera de forma inconsequente, desarranja a economia e provoca dúvidas nos investidores nacionais e internacionais.

Nossa combalida economia, destruída pelo lulopetismo, vem reagindo graças a um time de primeira que o próprio Bolsonaro regimentou. Mas é frágil e precisa de investidores para que o desemprego diminua e retomemos nos trilhos.

Os antigos romanos, dos quais os modernos governistas apreciam além da conta, diziam que a dúvida sempre beneficia o réu: no caso de Bolsonaro, apenas os réus companheiros. Aos adversários, reservam o agravamento da suspeita para a culpa. Tais romanos, há 2 mil anos, diziam que “errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico”. Não passou pela cabeça privilegiada dos varões de Plutarco que uma pessoa honrada viesse a cometer vários erros consecutivos, não por acreditarem na premissa da virtude sobre a tentação do pecado, mas por se sentirem protegidos pela instituição sagrada da república.

De Patrício nenhum se admitia que fosse mais diabólico do que o próprio diabo ao se negar a preferir o erro ao acerto mais de uma vez. Estes reivindicam o benefício da dúvida sem a contrapartida da obrigação de exalar virtude. A Luís de Camões, fundador da língua portuguesa, com o reconhecimento do poeta Fernando Pessoa, também faltou imaginação para forjar um verbo que admitisse mais que o segundo erro seguido. Tal verbo poderia ser “emburrecer”? Já que, convenhamos, não seria bastante usar o prefixo que designa a terceira vez no neologismo tri-incidir.

O vernáculo tem sofrido com a verborragia de Jair Bolsonaro e sua trupe. Mas muito mais do que a murcha flor latina, aqui se violentam os bons costumes republicanos, renegados e triturados na prática política da falação amoral e interesseira, evidentemente existente. Pior do que não ter papas na língua é chutar o balde da ética e pisar na jaca das boas práticas de governança.

Bolsonaro tem crédito, que com passar do tempo pode virar débito, principalmente se não controlar sua língua, de seus filhos e de alguns de seus ministros. Os brasileiros têm pouca paciência com quem se esforça em errar.

CARLOS HENRIQUE PELLEGRINI é professor universitário e Diretor de Gestão e Sucessão Familiar da Maxirecur Consulting.


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/a-boca-de-bolsonaro/
Desenvolvido por CIJUN