Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

A bolha da indiferença

JOSÉ RENATO NALINI | 30/04/2020 | 05:39

Seria muito bom que uma das lições do flagelo da peste fosse a sensibilização da sociedade. Principalmente daqueles que a manejam e que fazem acontecer: os poderosos. Na verdade, os “donos do mundo” adquiriram uma couraça e se refugiaram na bolha da indiferença. Para eles, tanto faz que a população pereça. O que interessa é o lucro e o bem-estar pessoal.

Os Estados Unidos, que já foram exemplo de democracia, que legaram ao Ocidente a lição do “um homem, um voto”, se tornaram a nação do “um dólar, um voto”. Ali, o 1% mais rico abocanha um quarto da renda e 40% da riqueza americana. Aumenta a desigualdade, assim como o fanatismo, o fundamentalismo, o egoísmo e a intolerância.

A observação não é de um estrangeiro. É do ganhador de um Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, que há alguns anos lançou o livro “A grande Divisão”. Para ele, essa fração dos super ricos, alienada das condições do povo, da saúde, da educação, do saneamento e da infraestrutura, não quer saber do destino do próximo.

Esqueceram-se que cuidar dos outros não é apenas bom para a alma, mas também para os negócios. A desigualdade crescente é o resultado de políticas deliberadas. Investe-se na indústria do armamento e sacrifica-se o meio ambiente. Se o dinheiro aplicado na fabricação de instrumentos que servem para tirar a vida tivesse a destinação da pesquisa e da ciência, talvez o mundo não tivesse precisado sepultar de forma atropelada centenas de milhares de pessoas.

Conhecendo a matéria-prima ordinária e miserável de que é feita a espécie humana, é difícil acreditar em súbita conversão. Mas o único remédio para a preservação das criaturas chamadas “racionais” neste sofrido planeta é a profunda mutação comportamental.

A pandemia do coronavírus vai passar. O que talvez não passe é a pandemia do egoísmo, do materialismo, da indiferença e da falta de compaixão. Ela continuará a ceifar a seiva vital de uma existência que só faria sentido se as pessoas acordassem para a realidade nuca e inevitável: de nada adianta ajuntar dinheiro, se não se tiver consciência para a fragilidade existencial e para a absurda condição de alguns possuírem excesso e à maioria faltar o essencial.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


Leia mais sobre |
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/a-bolha-da-indiferenca/
Desenvolvido por CIJUN