Opinião

A cidade e as serras

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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Último romance do português Eça de Queirós (1845/1900), "A cidade e as serras" é um de seus melhores livros. Obra póstuma, foi publicada em 1901, um ano depois da morte do autor. Zeloso de seu trabalho, Eça havia concluído o romance e feito uma primeira revisão. A morte o levou antes de passar às seguidas releituras que costumava fazer. A viúva do autor submeteu os originais ao amigo do marido, o também escritor Ramalho Ortigão. Este reviu os manuscritos para publicação. O livro conta a história de um aristocrata de origem portuguesa, Jacinto, radicado em Paris, cidade símbolo da civilização e modernidade no final do século 19. Ele precisa retornar à terra de seus antepassados. O escritor havia explorado o assunto no conto "Civilização", de 1892, com enredo semelhante, e amplia a abordagem no romance. Em "A cidade e as serras", metade da narrativa passa-se em Paris e a outra, em Tormes, numa divisão equânime de páginas. Há, portanto, equilíbrio na discussão de suas teses. A primeira delas, enunciada por Jacinto, diz que só há felicidade na civilização altamente tecnológica. Mas em meio à tal fartura, luxo e apetrechos tecnológicos, Jacinto é um sujeito entediado e aborrecido. Um incidente, no entanto, muda tudo. Ele parte para Tormes, região serrana portuguesa, a fim de reinaugurar o mausoléu de seus antepassados, destruído por uma tempestade. No interior de Portugal, Jacinto depara-se com uma natureza multicolorida e alegre. Modifica radicalmente sua opinião e passa a propagandear novos valores, agora ligados a uma vida simples, junto à exuberância da natureza. Como se vê, tese contrária à defendida na primeira parte da narrativa. Mas novo incidente altera seus pontos de vista. Percorrendo as terras, Jacinto depara com a miséria em que vivem seus colonos, amontoados em casebres depauperados e insalubres. Resolve investir. Reforma casas e contratos de trabalho; a partir de uma roda d'água, instala luz elétrica; cria uma escola, traz para a região farmácia e telefones. Melhora, em suma, a vida de todos. Une as duas pontas: incorpora à vida nas serras alguns ingredientes da civilização moderna, sem excessos nem supérfluos. O humor percorre diversas passagens do livro e, junto com a apurada habilidade do autor para construir personagens e situações, faz de "A cidade e as serras" uma das melhores obras de Eça de Queirós, querida pelos seus leitores.  

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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