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A cor da pele e o mercado

COMENDADOR EGINALDO HONÓRIO | 17/01/2020 | 05:00

É muito interessante – e algumas vezes revoltante – o quanto a exclusão não é inteligente. O IBGE apontou que, no ano de 2018, os pretos e pardos representavam 54,9% da população. Ainda que esse porcentual não corresponda a verdade, pois, a meu sentir, esse número é bem maior, mas considerando por correto e com olhar exclusivamente mercantil, esse número ainda é pouco explorado.

Lembro-me do lançamento há mais de 15 anos de um curativo adesivo com nome “color-aid”, idealizado por um oftalmologista da Capital, com duas tonalidades da pele negra, produzido pela empresa AMP Produtos Terapêuticos Ltda. Conversando com ele, disse-me que comumente era procurado por pessoas de pele escura com aquele tampão no olho pós-cirurgia, tido por “cor da pele”, que estava mais para cor de rosa que outra coisa. Naquela oportunidade – e ainda hoje – não encontramos curativos na cor da pele negra.

Lembro-me também que há muito tempo as mulheres negras, para usar meias de seda, tinham que mergulhá-las em café, para que se aproximasse da cor de sua pele. Atualmente há opções.

Na cosmetologia os problemas eram os mesmos, e posso atestar, pois prestei serviços à uma franqueadora dessa área: há uns 10 anos ainda eram poucos os produtos destinados aos negros, salvo a resistência da D. Maria do Carmo Valéria Nicolau, proprietária da Muene.

Na farmacologia acontece o mesmo, visto que há uma gama de medicamentos que não surtem os mesmos resultados. Assim também acontece nos tratamentos odontológicos, que exigem estudos diferenciados diante da diversidade de patologias especificas, não se limitando apenas à anemia falciforme. Eis que esses tratamentos são acometidos em grande maioria por hipertensão, glaucoma, mioma, queloide, entre outros e pouco se tem de literatura própria para o trato digno desse valoroso segmento.

Os negros ganham notoriedade em situações de desgraça, tragédias, violência, e a orquestração é tão grande que são classificados como estereotipo de bandido, tal qual afirmado pela juíza de Campinas, de que o acusado não tinha “estereótipo de bandido” por que tem pele, olhos e cabelos claros. Os negros sofrem as penas mais severas do que os não negros. Qual a razão disso? O que é que se ganha com isso? Qual a diferença – excluindo a cor da pele – entre um negro e um não negro?

Em sendo maioria da população e se vivêssemos em igualdade e oferta de oportunidades igualitárias, seríamos – disparadamente – o melhor país do mundo.

COMENDADOR EGINALDO HONÓRIO é advogado.

 


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