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A coroa do rei

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 28/05/2020 | 07:00

Lembrei-me, há poucas semanas, da marchinha de Carnaval de Dircinha Batista (1922-1999): “A coroa do Rei, /Não é de ouro nem de prata, /Eu também já usei, /E sei que ela é de lata. (…) É de lata barata…”

Em uma conversa on-line com a Madre Maria Madalena de Jesus Crucificado, priora do Carmelo São José, ela me clareou alguns sentimentos de dificuldade com algumas pessoas: é porque esta ou aquela pessoa puxa para fora de mim o que tenho dentro. Fez-me um bem imenso perceber, no “olhar de fé”, o que Deus quer e o que está me falando com aquela situação ou pessoa. São as coroas de lata que trago comigo que me ofereceram, ou que coloquei em minha cabeça, e às quais me agarro, irritando-me com quem corro o risco de perdê-las.

Orgulho, vaidade, poder… Concluir sobre isso foi uma libertação e me trouxe paz. Mas ainda sobre coroas de lata, me vem hoje os que as usam, mas aos olhos da sociedade são vistos como gente do bem pelo discurso, pela posição social, pelo comando…
Emocionei-me ao saber dos trapos vermelhos nas janelas em Soacha-Bogotá, onde vivem colombianos humildes, com pedidos de ajuda em remédio e comida. Se houvessem combatido de verdade a pobreza, como escreve a jornalista Sylvia Colombo no último domingo na Folha de São Paulo, o impacto da covid-19 seria menos dramático.

Emocione-me ao saber do retorno de migrantes de São Paulo para Pernambuco e Paraíba, em transporte clandestino, porque perderem o emprego ou outras fontes de renda nos últimos meses. Com eles levam a covid-19 para as pequenas cidades nordestinas. Alguns viajam amontoados dentro de caminhões com ventilação escassa. Se houvesse combate de verdade para superar a pobreza, talvez nem tivessem saído de sua terra natal. Diz a música de 1973 de Raimundo Fagner”… Que Deus do céu me ajude / Quem sai da terra natal/ Em outro canto não para/ Só deixo o meu Cariri no último pau-de-arara…”

Na Folha de São Paulo de 23 de maio, matéria sobre a 4ª. edição do Seminário Exploração Sexual Infantil, em que se constata que o aumento da desigualdade e o isolamento provocados pela pandemia de coronavírus elevam o risco de exploração sexual de crianças e adolescentes. Além da fome, mais tempo online na quarentena também os tornam mais fragilizados.
Eu me importo.

Meu Deus do Céu, quantas coroas de lata para serem vencidas!

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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