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A descentralização, a gula e o dano

ANTONIO FERNANDES PANIZZA | 17/03/2020 | 05:06

Até seus anos, 60 Jundiaí teve edifícios altos só no Centro da cidade. O primeiro Plano Diretor, de 1969, demarcou sua zona num quadrilátero entre as ruas Rangel Pestana e Petronilha Antunes, e transversalmente entre paralelas passando pela Igreja São Bento e Praça Ruy Barbosa.
Os predominantes lotes estreitos foram feitos sem afastamento lateral e ocupam quase todo terreno. Os elevadores caros e a dificuldade com o tipo de obra limitava o prédio às áreas de maior valor. A presença frequente do automóvel ainda estava por acontecer.

DESCENTRALIZAÇÃO
Foi na revisão do Plano Diretor de 1981 que a equipe técnica da Prefeitura de Jundiaí propôs e aprovou a descentralização dos prédios. Com a preocupação de concentrar população ao longo do transporte público, ela começou pelas avenidas e ruas dotadas de coletivos. Fora do Centro os loteamentos estavam realizados com base em Lei Estadual, com lotes de medidas de fácil reagrupamento, permitindo edifícios maiores. Eles começaram a surgir também nos bairros: esta alteração de costume de vida acontecia também nas capitais e outras cidades. A mudança exigiu das prefeituras mais atenção nas consequências, impondo estudos sobre todos os aspectos do novo urbanismo.

Nas providências técnicas, as densidades eram em função da capacidade dos bairros, que tinham de ser atendidos pelo sistema viário possível, protegendo os mananciais e o meio ambiente. No início, o respeito às decisões facilitou o bom efeito das novas leis.

GULA
Durou pouco o respeito técnico a esses cuidados. Na eleição seguinte, o interesse dos especuladores via no zoneamento e no seu índice de uso uma nova moeda de valor manipulável. E esta prática indevida continua sendo utilizada sem ser impedida pelas autoridades. Foi dela que brotou a gula dos especuladores, os quais conseguem moldar as normas, facilitando-lhes a compra e a estocagem de terrenos. Na comercialização de imóveis há corretores que reconhecem que nem sempre o máximo aproveitamento pode não ser o melhor projeto, mas a maior parte dos empreendedores sempre quer obter o limite máximo.

DANO
Tendo isto ficado no passado e sendo o seu resíduo pouco perceptível frente à extensão descuidada, a situação dos muitos imóveis desocupados é um prato cheio para pichadores e invasores. Do desequilíbrio de ocupação havido decorreu o dano que influiu no empobrecimento de grande parte do Centro, cuja deterioração é contínua e está lá à mostra para quem quer ver.

 

ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.


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