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A dignidade do trabalho humano

DOM VICENTE COSTA | 05/05/2019 | 07:30

Na última quarta-feira, dia primeiro de maio, comemoramos o Dia do Trabalho. Feriado em nosso país, esta data quer mostrar com clareza a importância da dignidade que esse ofício de cada um pode prover à vida humana.
Em nossos dias é importante e, ao mesmo tempo, difícil tratar deste tema, uma vez que vivemos tempos de competitividade tão acirrada que, frequentemente, alguns interesses pessoais acabam sobressaindo aos princípios do bem comum e da convivência fraterna entre as pessoas. É certo que cada um pode e deve correr atrás do seu sustento. Mas devemos, em primeiro lugar, sempre ter em vista que fazemos todos parte de uma sociedade em que, apesar das questões individuais, o coletivo sempre se põe à mostra. Com efeito, para as questões de trabalho, a convivência interpessoal deve ser uma prática a ser exercitada sempre, apesar de existirem ofícios que se executam sozinhos. O trabalho em equipe sempre é gratificante e fundamental, pois, neste caso, o êxito do trabalho sempre é condicionado por todos aqueles que nele estão envolvidos.
Influenciada pela cultura do materialismo, infelizmente, a sociedade hodierna trata o trabalho humano como uma simples mercadoria e a pessoa como uma força anônima necessária para a produção. Nesta dinâmica, cresce a necessidade de longas jornadas de trabalho, em detrimento do descanso digno de todo trabalhador, além do caráter precário do trabalho causado pelo aumento da terceirização, entre tantas outras situações, fato este que priva o trabalhador de sua dignidade. É necessário sempre relembrar que o “trabalho é ‘para o homem’ e não o homem ‘para o trabalho'” (São João Paulo II, Carta Encíclica Laborem Exercens, n. 6f).
Nesta altura da reflexão, impõe-se ainda a consideração do problema de desemprego. Este pode tornar-se autêntica calamidade social, porque atinge muitas vezes os jovens que, depois de se terem preparado por meio de formação profissional adequada, veem frustrada a sua vontade sincera de trabalhar no desenvolvimento da comunidade. A verificação deste fato leva a preconizar o estabelecimento de fundos em favor dos desempregados, a fim de que estes possam subsistir com as suas famílias. “O trabalho dá dignidade, e os responsáveis dos povos e os governantes têm a obrigação de fazer tudo a fim de que cada homem e cada mulher possam trabalhar e assim erguer a cabeça e olhar os outros na cara com dignidade” (Papa Francisco, Audiência Geral, 15 de março de 2017).
Assim, cada vez que proferimos a Oração do Senhor, o Pai Nosso, poderemos pedir com certeza e confiança: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje!”. É um voto de confiança em Deus, no qual esperamos e depositamos a nossa fé de que, a seu tempo, nos dará o que for necessário para a nossa sobrevivência. O pedido do pão de cada dia, quando feito com fé, esperança e amor, será, então, o pleno cumprimento da Palavra de Deus: “Aquele que come e bebe e vê o fruto do seu trabalho, isso é dom de Deus” (Ecl 3,13).

DOM VICENTE COSTA é bispo diocesano de Jundiaí

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