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À espera

JOSÉ RENATO NALINI | 21/05/2020 | 05:10

A reclusão imposta pelo coronavírus permitiu revisita ao imenso acervo de guardados, intocados desde que foram parar em dezenas de caixas. Seu destino seria o esquecimento, até que herdeiros afoitos viessem a se livrar deles, no afã de se desfazer de lixo amontoado durante setenta anos.

Foi quando recuperei a mensagem de Dulce Ribeiro Simonsen, escrita na Fazenda Campo Verde em 21 de dezembro de 1976 e destinada a Maria Luíza, que em 9 de abril de 1977 daria à luz nosso primogênito, João Baptista. Com aquela letra de caligrafia elegante, característica das boas alunas da primeira metade do século 20, transcreveu o poema Iniciemos, de Lupe Cotrim Garaude, havia pouco falecida.

Iniciemos

Meu filho, iniciemos já nosso diálogo/Tua vida está suspensa em mim/inédita seiva nos percorre./Não sou apenas um, mas dois em ti/um sangue de esperança nos inunda./A mesma carne, a que darás outra existência/é veia que nos une, e o mesmo espírito/onde paira a ânsia de verdade/se desdobra, intacto, em tua infância./Que cresças com ele, mais livre ainda,/a realiza-lo por inteiro./Sei que me aguardam tuas mãos,/primeiro frágeis/e teus olhos, na procura de conquistar/os contornos deste mundo;/sei que necessitas de minhas mãos e meus olhos/para revelar-te os contatos, os significados/e toda me apronto para relatar/esse gratuito mistério, essa fonte/de beleza, que paira/além do céu e da miséria./Ser-te-á difícil/ser alguém com tantas exigências/e renunciar, para criar relações possíveis/com teu próximo;/sei que necessitas /de muita coerência para cresceres justo,/sem ferir-te a tua solidão/na terra desconexa; sei de tua inocência/e desconfiança, força e receio/amor e ódio, e me transformo/mais em caminho do que em seta,/melhor rumo não me ocorre, além/do coração, para servir tua existência./Um novo tempo surge em mim/a cada instante,/um tempo do futuro,/a que confio tua vida./O passado depura-se, e guardo/cada dia para ofertar-te/o mais belo poente,/o apelo dos perfumes intensos,/o sentimento exato,/a memória dos encontros totais./Outra armadura e outra coragem/não sei dar-te, que esse núcleo melhor,/recolhido da humanidade. /Na tua hesitação e dúvida/escolha a alternativa/hei de lembrar-te/a sutileza da borboleta/na imensidão do vale,/a constância verde/do mar ininterrupto;/a extrema voz do vento;/a líquida firmeza/da vontade dos rios;/a natureza toda pulsando/no mais grave pensamento./Meu filho, ofereço-te/uma terra que amo,/um próximo que sinto como próximo/um amanhã em que confio,/um universo humano. /Nesse amor que compartilho contido/no mais ermo de mim/revelo este segredo/onde possas erguer/o amor de ti mesmo./Meu filho, eis o mundo;que saibas recebe-lo.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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