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A geografia de ‘Tarsila Popular’e suas fazendas

EDUARDO CARLOS PEREIRA | 10/08/2019 | 05:00

A maior exposição já feita da artista Tarsila do Amaral chegou ao fim no domingo, 28 de julho, como a mais visitada da história do Masp (Museu de Arte de São Paulo) – com 402.850 visitantes. Também é a maior demonstração de que cultura tem interesse, sim, para a população brasileira. Ao custo de R$ 4,5 milhões, viabilizados pela Lei Rouanet, indica a necessidade de manutenção do fomento à cultura.

Quantos projetos, por exemplo, foram financiados por essa legislação em Jundiaí? Essa resposta não vem de imediato porque os poucos que existem são insuficientes em proporção à população jundiaiense – e sem a constância de solicitações e poucos eventos de importância para um grande público.
A falta de reconhecimento da paisagem usada por Tarsila e os lugares que deram origem ao seu trabalho são igualmente ameaçados. Estou falando de uma de suas fazendas na então Jundiaí e atual Itupeva (mais precisamente em Mont Serrat).

Quando levei, em 1983, Pietro Maria Bardi, fundador do Masp, para uma visita a fazenda Capim Fino de José Escarano, confirmou-se que aquela sede também foi da família Amaral. A visita foi sensacional porque naquela sede completamente preservada havia uma grande coleção de obras de arte contemporâneas.

Por todo o trajeto de terra até a fazenda, a paisagem era então a mesma que a artista registrou. Foi surpreendente, mas permanece o descaso na preservação dessas paisagens rurais fantásticas e o desinteresse público e intelectual também é terrível, de forma inversa ao sucesso que faz, cada vez mais, sua arte.

Trata-se do trajeto entre Mont Serrat e a Fazenda Capim Fino. Ainda é possível repeti-lo hoje, como comprovado em sua obra “Paisagem”, de 1948, no acervo do Museu de Arte Moderna (MAM). A diferença é que os usos atuais estão sendo ocupados por loteamentos predadores e a paisagem remanescente não é reconhecida por ninguém.

Posso afirmar isso porque há 60 anos já conheci essa região, onde passava as férias usando sempre o trem da Sorocabana que a própria Tarsila usava, essa paisagem já me fascinava e me provoca. Os trilhos seguiam as terras cafeeiras e as paradas eram sempre próximas das sedes das fazendas – assim, a fazenda Santa Cruz da Bela Vista onde eu ficava era duas estações antes da fazenda Mont Serrat e Santa Teresa do Alto.

Essa geografia foi a paisagem determinante da sua revolução modernista e inspiradora para a produção de suas obras que, do Brasil, hoje são as mais conhecidas na América Latina. E a mais popular e cara artista que o país já teve.
O Abaporu, por exemplo, é um ícone da arte comparado em interesse público a Mona Lisa, de Da Vinci.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios.


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