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A hora e vez de Augusto Matraga

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 26/06/2019 | 07:30

“Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves, Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira (…)”. Assim começa “A hora e vez de Augusto Matraga”, um dos melhores contos da literatura brasileira, escrito pelo médico de formação e diplomata por opção João Guimarães Rosa (1908/1967). A história é a última de “Sagarana”, volume publicado em 1946, que reúne nove contos longos e livro de estreia do prosador mineiro. Conta a trajetória de Nhô Augusto, coronel violento e arruinado, sujeito intempestivo que, num instante, vê sua vida desmoronar: abandonado pela mulher e filha; espancado por seus ex-capangas a quem devia salários; a mando de um rival marcado com ferro em brasa como gado; lançado num precipício, Augusto é dado por morto. Mas milagrosamente sobrevive e, cuidado por um casal de velhos pobres e caridosos, tem nova chance. Muda de cidade, de região e, principalmente, modifica sua maneira de viver. De prepotente, arruaceiro e irresponsável, passa a ajudar a todos, sempre prestativo e solícito. Encontra por duas vezes Joãozinho Bem Bem, chefe cruel de um temido bando de cangaceiros, e os dois criam amizade aparentemente sólida e duradoura. No último desses encontros, aparece para Matraga a oportunidade de evitar uma terrível injustiça e o agora convertido Augusto assume o papel de anjo salvador. O conto ganhou adaptações para o cinema e para o teatro. Na telona, a versão, de 1965, foi dirigida por Roberto Santos, coautor do roteiro ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, e estrelada por Leonardo Villar. No teatro, a montagem, de 1986, contou com duas lendas da dramaturgia brasileira: o diretor Antunes Filho (morto em maio último, aos 89anos) convidou o ator Raul Cortez (1932/2006) para viver o herói.

No texto original, a história é narrada na prosa recheada de regionalismos, neologismos e invenções linguísticas de toda ordem, bem ao sabor de Guimarães Rosa. Por seu enredo dinâmico e pelo carismático protagonista, o conto serve também como bom começo para quem quiser se aventurar pelo universo desse escritor tão talentoso e citado quanto desconhecido por tantos que o consideram “ilegível”. Nada mais falso. Rosa é um dos maiores prosadores da língua portuguesa, um talento singular que merece ser lido e relido. Fica a sugestão para descobri-lo ou retomá-lo pelo seu Augusto Matraga.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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