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A redescoberta do Brasil

JOSÉ RENATO NALINI | 12/07/2020 | 04:53

Em 22 de abril de 1500, ao que consta, este espaço continental foi “descoberto” por Pedro Álvares Cabral. Entre aspas, porque há consistentes versões de que não houve acaso e os lusos sabiam onde queriam chegar.

Daí por diante, a História registra o que foi a caminhada dos brancos nesta terra milenarmente habitada por múltiplas etnias indígenas, que em sua trajetória mantiveram praticamente intacto o maior patrimônio pátrio, as florestas, a água doce e a exuberante biodiversidade brasileira.

Em 22 de abril de 2020, uma reunião ministerial permite aos nacionais e ao mundo inteiro, uma redescoberta do Brasil. Não são os palavrões o conteúdo mais lastimável desse encontro. É a manifestação do delírio de quem atinge democraticamente o governo e não tem noção do que é preciso fazer para devolver a esperança ao povo.

Chocante o ódio que destila das expressões acintosas, agressivas e de péssimo gosto. Despreparo seria tolerável, pois o Brasil é heterogêneo e os representantes dos poderes estatais não podem deixar de refletir o escancarado predomínio da ignorância. Mas quando se alia o sem noção à violência, as coisas ficam perigosas.

Quem deveria cuidar da educação, única chave para transformar o país, prefere falar em assassínio. Quem deveria proteger o ambiente até para garantir sobrevivência ao periclitante estágio econômico tupiniquim, quer acabar com o que restou de normatividade tutelar. Já não bastou a revogação do Código Florestal? Agora é acabar com o que restou, usando “canetadas”, para dizimar numa “baciada” o ordenamento. Ele não resistirá ao “estouro da boiada”.

Até a titular evangélica dos Direitos Humanos fala em cárcere e não em diálogo. A primeira ferramenta para fazer valer esse imenso capítulo de enunciações que a Constituição Cidadã abrigou e que parece destinado a se tornar mera proclamação retórica, seria o diálogo. Sumariamente descartado.

Enfim, decepção, frustração e espanto é o que se pode extrair desse nefasto cenário, em que se não lamentou o número de mortes, nem se mostrou o plano governamental para o enfrentamento da peste.

Essa “redescoberta do verdadeiro Brasil” foi melancólico. Talvez fosse melhor, depois disso, devolvê-lo a Portugal, com o nosso humilhado pedido de desculpas. Ou então, vamos à canção: “Começar de novo!”.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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