Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

A sua vida continua

GUARACI ALVARENGA | 02/08/2019 | 07:30

Ninguém dá nada por ela.
Hoje, quando uma autoridade pública é questionada quanto a educação, ainda assim o valor de uma professora é deixado de lado. A velha frase de um velho político preso, cínico conhecido, parece tornar-se proverbial: professora não é mal remunerada, mas sim, mal casada.

Sua missão: não só instruir, mas educar.
A jornada diária. Primeiro o caminhar a pé, depois a espera do ônibus, mil riscos a correr. A escolha das aulas. Os horários e escolas alternativas. Desde jovem já sentiu este desassossego. Viu, todavia, claro o caminho. Mais que promessa, era a certeza de seu destino. Tudo nela é natural. Sabe ouvir e sabe falar. Às vezes tropeça na ingratidão, muitas vezes cai no esquecimento, mas sempre se levanta como a criança que aprende a andar. O impulso da vida a leva, seguir em frente.

O café corrido. O preço dos alimentos já mexe com seu bolso e com o seu pobre desjejum. A chuva. O ônibus atrasado. O horário a cumprir. A matéria a ser lecionada. Encontra energia num segredo só seu e bem guardado. Vai com ela, aonde ela vai. Reúne as forças necessárias, na vontade e alegria de ensinar.
A modernização da tecnologia didática, bem como a adequação dos currículos a vida prática dos alunos. Mais uma vez é chamada a intervir. Na classe, de relance, vê a luta diária a enfrentar. A invasão de portadores de celulares.

Está tão difícil cuidar dos nossos filhos, imaginem cuidar dos filhos dos outros. Tantos jovens irrequietos e “excitados”, nos dias de hoje. Uns taludos, outros franzinos, maioria menos afortunada, entretanto, a todos quer bem. Sejam tatuados, usando bonés ou coçando a genitália. Com olhos comovidos, não quer ver ali o Brasil de amanhã. Aí, acredita no que diz. Nem precisa a diretora repetir e nem a coordenadora recomendar. As palavras exatas. Basta uma palavra e se acende. Não come e nem mastiga uma única sílaba. Traz nos olhos, no jeito, uma flama que crepita.

A sala de aula. O ar abafado. Nas instituições públicas, o ar condicionado é privilégio de poucos, e só em gabinetes fechados. Não desiste. Se o aluno não estuda é culpa da professora. Num ímpeto de sinceridade, se empenha. Prefere pecar pela ação, jamais pela omissão. À noite há os afazeres do lar. O cuidado com os filhos. Exausta, liga a televisão.

O noticiário. Impossível não ver ou não ouvir. Toda aquela desesperança. Assaltos, quadrilhas, drogas, balas perdidas, mortes no transito, corrupção, propina, desonestidade, políticos corruptos, desvio de milhões de dólares, ganância desmedida. O Brasil das notas baixas. A escola pública desacreditada. Nosso Brasil não merece isto. Desliga a televisão. Recolhe-se ao quarto. Reza uma prece e começa a chorar.

GUARACI ALVARENGA é advogado. E- mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br


Leia mais sobre |
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/a-sua-vida-continua/
Desenvolvido por CIJUN