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Abertura de sentidos

Margareth Arilha | 19/02/2020 | 05:52

Se fôssemos pensar em trocar a palavra “abertura” do título acima por alguma outra, um universo de ideias traria, de maneira inesperada, revelações daquilo que está no ar e daquilo com que estamos lidando, ou gostaríamos de lidar.

Vou falar daquelas que me ocorreram. A mais comum é a abertura de portas. Abertura de projetos, abertura de ciclos. Abertura de relações, e por aí vai. Abertura de ópera. Abertura de uma matéria de jornal. Abertura pode ser tudo aquilo que introduz o sujeito naquilo que irá acontecer, ou que te indica que por ali pode haver um movimento promissor. Coisas novas podem acontecer: geralmente associamos a ideia de abertura como algo que pode trazer situações inovadoras. Muitas vezes ouvimos: abra-se para aquilo, procure observar o novo, não tema.

O motor da abertura é o desejo, a aspiração de responder a algo ou alguém que pensamos ter a chave mágica para que a porta do “Abre-te Sésamo” se movimente, circule, se apresente. Há um quê de magia quando deixamos fluir o desejo: ocorre que às vezes a abertura a que ele, o desejo, pode produzir ou projetar, pode ser tão intensa, tão nova tão poderosa, que junto surge o medo paralisante, a premissa da dor, do não vai dar certo, ou a premissa do “será que está certo isso tudo? Será que vai funcionar comigo? Ou, será que eu posso ? Será que eu tenho o direito de? Haverá um crime nisso tudo que penso ou faço? Devo renunciar diante de meu desejo? Até onde as questões morais, religiosas e éticas definem o que eu penso ou o que eu sinto?”

Estou aqui falando em termos de desejos como aspirações, que podem ou não ser sexuais. Em tempos contemporâneos, muito do desejo tem se confundido com a vontade de consumir, que podem ser importante, mas que não responde pela totalidade das aspirações de um ser humano.

O campo da sexualidade pode, de maneira equivocada, ficar na outra ponta, ou seja, projetado socialmente não como fonte de realização criativa, mas apenas como uma estratégia reprodutiva, ou como expansão metafórica de liberdade, definida publicamente, apenas.

O grande babado, e é aí que mora a dificuldade, é a coragem de olhar e realizar aquilo que realmente faz sentido para cada um, ou seja: fazer aquilo que torna a alma cheia de alegria e esperança de viver. Em ultima instância, cheia de amor. Mesmo no Carnaval.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp.


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