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Abismo chama abismo

JOSÉ RENATO NALINI | 24/05/2020 | 05:50

Os Romanos nos legaram impressionante estrutura sobre a qual alicerçamos o nosso direito, mas não foi só o conhecimento jurídico a sua herança. Eles aprimoraram a filosofia grega, a esquematizaram e fizeram-na pragmática. Uma tragédia eliminar o Latim do Ensino Médio, assim como excluir o Direito Romano dos cursos de Bacharelado.

Recorrer aos brocardos latinos é sempre saudável. O dom da síntese está nessas expressões que dizem tudo e sugerem reflexão profunda, a quem se detiver a analisa-las.
Veja-se, por exemplo, o “abyssus abyssum invocat” : o abismo chama o abismo. Expressão extraída de um salmo de David, a ensinar que uma falta origina outra. Ou seja: quem começa a transigir com as pequenas coisas, quando percebe está deixando de observar as grandes.

Essa lição poderia ser a tarefa diuturna daqueles que têm responsabilidade para com o próximo e não se convencem do alcance de suas palavras, de seus gestos, de sua conduta.

Os tempos reclamam seriedade, franqueza, sensibilidade, coragem e outros atributos que foram esmaecendo e trancados na arqueologia das virtudes. Quase que um cemitério, onde jazem hoje aquelas qualidades que há tempos costumavam distinguir a pessoa pública.

A nação exige maturidade e espírito de sacrifício de suas autoridades. Afinal, calamidades são previsíveis e só detonam países que não cuidaram de se precaver e de se prevenir. Palavras fúteis e inconsistências são indesejáveis. Há quem ache graça. O começo é quase que uma brincadeira, mas a coisa fica feia quando não se confere seriedade àquilo que é sério.

A farsa não pode durar indefinidamente. Chegará um dia em que se invocará outro provérbio latino: “Acta est fabula”: está terminada a peça. Era assim que, nos espetáculos antigos, anunciava-se o fim da representação.

Até lá, resta nos confortar com um terceiro brocardo latino: “Ad augusta per angusta”: chega-se ao bom resultado por caminhos tortuosos e sofridos. Os resultados sublimes reclamam, muita vez, veredas estreitas. Eram palavras de sinal dos conjurados no ato IV do Hernani de Victor Hugo. Não se alcança o triunfo sem o enfrentamento de graves dificuldades.

Em que estágio estamos nós?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


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