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Ágatha não será estatística

FABIO JACYNTHO SORGE | 24/09/2019 | 07:30

A morte da menina Ágatha Félix não será estatística. Na sucessão de tragédias que tivemos nesse ano, o choro do avô da criança foi a mais comovente. Assim, a passagem da criança deve ser lamentada, chorada e servir para a reflexão sobre a política pública bélica implementada no Estado do Rio de Janeiro.

A irresponsável guerra do Governador Wilson Witzel segue fazendo vítimas e agravando o problema da violência urbana, ao invés de melhora-lo.

É muito fácil apresentar soluções simplórias para problemas complexos. É muito tacanho vender que com a violência ou o uso da força se resolvem problemas sociais crônicos. “Mirar na cabecinha” ou “abater os criminosos” não são nem de longe a solução para o grave problema da violência e só fazem com que inocentes, como Ágatha, sejam mortos no fogo cruzado.

As autoridades constituídas devem fazer com que a lei seja respeitada e dar o exemplo.

Diligências de perseguição à criminosos devem terminar com a prisão do suspeito e com as vidas dos policiais e das vítimas preservadas. O Estado não pode ter política pública de execução de quem quer que seja, pois não existe pena de morte fora de guerra declarada.

No caso de Ágatha, se havia a perseguição à uma moto com suspeitos e não havia sinais de que eles estavam armados, competia aos policiais intensificar os esforços nas buscas, dar sinais de parada, mas não fazer disparos. Isto porque, muitas vezes o suspeito acaba ou parando ou batendo o veículo, pois não é fácil fugir da Polícia.

Não se atira em veículos suspeitos se não há qualquer sinal de pessoa armada ou risco efetivo a segurança dos policiais envolvidos na perseguição. Isso porque a informação recebida pode estar errada e inocentes podem ser feridos, como podemos nos lembrar no triste caso do motorista, Evaldo dos Santos Rosa, outra vítima da guerra de Witzel, morto com 80 tiros. Além disso, inocentes podem ser feridos com os tiros, já que não é fácil acertar um veículo em movimento e, como as vias públicas tem diversos outros motoristas, a chance de se acertar pessoas que não sejam o alvo é grande.

E tudo isso tem de ser passado aos Policiais que estão na rua pela cúpula das instituições, em treinamentos e simulações de perseguições reais.

Até porque, a Guerra de Witzel faz diversas vítimas também entre os que compõe as forças do Estado e que morrem as dezenas.

Quando um Governador de Estado promove o ódio e naturaliza a violência com péssimos exemplos, tendo uma atitude grotesca ao comemorar a morte de um suspeito como se fosse um gol em uma partida de futebol, é dele também a responsabilidade pela morte de inocentes.

Ágatha Félix foi morta aos oito anos de idade, com um tiro de fuzil pela Guerra de Witzel que precisa parar, antes de matar mais inocentes.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí.

Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí


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