Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Antonio Fernandes Panizza: Ignorância estranha

ANTONIO FERNANDES PANIZZA | 31/03/2020 | 05:15

Os hospitais rapidamente construídos na China, de recente divulgação, inspiraram a Fiabci-Brasil, Federação Internacional Imobiliária, que fez matéria entusiasmada afirmando: “Um dos segredos está na tecnologia de arquitetura de pré-fabricação.” Mas desfavorável ao Brasil: “apesar destas tecnologias estarem muito distante da realidade da engenharia brasileira, serve de inspiração para o setor imobiliário do nosso país”.

Há oitenta anos a China vivia guerras internas, e a engenharia brasileira já dominava pontes e rodovias, e não parou de evoluir até hoje. Nos anos cinquenta, a arquitetura e urbanismo estavam presentes nas melhores revistas internacionais. Affonso Reidy, Lúcio Costa, Oscar Niemayer – com projetos no Rio de Janeiro e Brasília – mostravam o que de melhor havia no mundo.

Na energia hidrelétrica, as antigas barragens se proliferaram no estado de São Paulo na saudosa gestão de Lucas Garcez, e Itaipu consolidou nossa vanguarda. Nos anos sessenta surgiu o metrô, e até hoje, embora pouco, continua dentre os melhores. Percebe-se que quando é por obra pública de porte, a tecnologia brasileira não deve nada aninguém, chegando a ser muito exportada. O mesmo pode ser dito do ramo imobiliário privado.

É na habitação popular que aqui se faz o que não deve ser feito. Nos projetos governamentais o urbanismo inexiste, prejudicando seus resultados e influindo mal nas cidades. No dia a dia, maus gestores fecham os olhos às invasões de terra, aceitando as habitações precárias como inevitáveis. Pior ainda quando estão nas costas de morros e nos baixos inundáveis. Com fraca ajuda social, deixam os humildes em armadilhas, pois nas terras não urbanizadas as perdas serão uma certeza. Em um país de extensão continental e dividido em estados e municípios é insensato ter tantas decisões centralizadas.

A burocracia retrógrada impede a responsabilidade solidária, que corrigiria o grave desencontro da ação federal, estadual e municipal, cujos cronogramas são irrealizáveis, e os projetos inconclusos. Esta crítica não se limita ao executivo, pois os planos públicos dependem de leis do legislativo e controle do judiciário. Pelo que a mídia divulga, são instituições não primorosas em agilidade.

É preciso que o nosso governo passe a ser sensato e consiga afastar os corruptos. No legislativo, é vergonhosa a quantidade de falso indeciso que só busca negociação interesseira; no judiciário é fundamental que o prazo dos casos e a decisão sejam justos; e no executivo introduzir regras claras que afastem os gestores de atos irregulares.

ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/antonio-fernandes-panizza-ignorancia-estranha/
Desenvolvido por CIJUN