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Espaço urbano e dignidade humana

Antonio Panizza | 26/05/2020 | 10:48

A história nos mostra que a melhoria de vida dos povos repercute na sua longevidade. Na idade média, o espaço limitado pela muralha de defesa e a população crescente saturava o habitat. As guerras de conquista causavam perda populacional que não era a única causa, mas também as doenças não dominadas pelo homem. Conhecidas como pandemias, alcançam povos em territorios amplos, regiões ou mesmo continentes. Uma das maiores, a Peste Negra, teve milhões de mortes e durou séculos.

A CIDADE

Com início em 1918, a Gripe Espanhola penalizou milhões, tendo sido a primeira com a população em cidades. A partir da era industrial iniciada no século XIX a expansão se mantinha crescente e exigia novas demandas. A criação do concreto armado ofereceu aos arquitetos e urbanistas um novo elemento para as estruturas, desde subsolos profundos a vãos maiores nos edifícios.

Daí surgiu o movimento da Arquitetura Moderna que inovou o projeto de residência, de indústria e demais. A primeira grande guerra terminada há mais de cem anos danificou muitas cidades que já sofriam com a insalubridade. A gravidade sanitária sensibilizou os arquitetos urbanistas, que, reunidos em 1933 na Grécia, no CIAM- Congresso Internacional de Arquitetura Moderna estudaram o tema e redigiram a Carta de Atenas.

BUSCA DO ESPAÇO URBANO

Coordenada por Le Corbusier a carta propôs que o crescimento urbano deveria atender às quatro principais funções das pessoas: habtar, trabalhar, recrear, circuar. A proposta sensibilizou países que a adotaram como norma. No Brasil as ações foram esparsas, mas o estado de São Paulo, mais povoado e com muitos municípios, instituiu os percentuais para os novos loteamentos: máximo de 70% para as quadras com lotes, não menos de 30% para as ruas e sistema de lazer, e este nunca inferior a 10%. Os lotes deveriam ter 10m de frente ou mais e 250m2 de área, e mesmo respeitando os recuos permitia boa casa térrea de 120m2 ou sobrado. No traçado das cidades as normas facilitaram a infraestrutura. Sob estas regras a Capital teve forte crescimento assim como as cidades médias do interior do estado.

TRANSFORMAÇÕES

A demanda de casas populares em bairros exigiu a divisão do lote em dois de 5 x 25m. Mesmo assim a falta de habitações de menor custo gerou as incorretas invasões “clandestinas”, que se consolidaram como favelas. Em áreas de risco e sem ter espaço público a convivência coletiva é inviável, e nas habitações precárias os cômodos exíguos deixam a saúde prejudicada. Nos edifícios para escritórios a compressão dos espaços também ocorreu.

Há três décadas as salas individuais eram de no mínimo 9m2, e as de múltiplos funcionários com 6m2 por pessoa. A nova tecnológica conduziu a uma reversão, ampliando as salas comuns e diminuindo as individuais. Com o computador a área individual foi reduzida a uma baia com 2,5 m2, incluindo aí a mesa e o assento de quem trabalha. Não bastando o acúmulo de pessoas nas salas, proliferou-se o uso permanente do ar condicionado, e há casos de vedação da iluminação e ventilação natural.

RETORNO À DIGNIDADE.

Comprovada agora a inadequação da favela e da sub-habitação (50% da população brasileira não tem esgoto) aonde a condição de vida chega a ser promíscua, e também dos espaços de trabalho que se tornaram impróprios pela proximidade das pessoas, percebe-se que os critérios conhecidos e abandonados devem ser resgatados e atualizados.

ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.


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