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Antonio Panizza: Novos acessos para o perigo

ANTONIO FERNANDES PANIZZA | 02/07/2019 | 07:30

Quanto custa construir um hotel? Quais as exigências a serem atendidas para que tenha condições de funcionar? As normas da Vigilância Sanitária são severas? Quantas vagas de estacionamento são necessárias? Qual o Sistema de Defesa Contra Incêndio a ser instalado? Enfim como nos demais edifícios, além da construção, o seu preparo implica em muitas e dispendiosas instalações.

Triste é saber que num país onde, aproximadamente, apenas a metade de sua população cumpre as exigências das normas em vigor, embora as instituições pertinentes tenham sido criadas para a totalidade da demanda. A verdade é que a outra metade vive em habitações precárias, onde é possível fugir dos custos dos serviços públicos, apelando para os “gatos” das ligações de água e de energia, que costumam ser clandestinas. Muitas destas habitações ocupam indevidamente as encostas dos morros, bem como as margens inundáveis dos cursos d’água. Apesar de existirem fartas fiscalizações com a obrigação de impedir a obra clandestina (sem projeto aprovado), nossas cidades mostram uma convivência íntima entre loteamentos e favelas, onde os primeiros são dotados dos equipamentos urbanos necessários, e as favelas, indefesas, são verdadeiras fogueiras armadas.

Como se não bastasse toda esta condição de risco, a nova modernidade criou meios para a compra de tudo, inclusive da própria insegurança. Com um simples dedilhar é possível comprar uma estadia tanto num apartamento de Nova York como numa laje em favela Carioca. Mais do que isto, o objeto da estadia pode ser até mesmo um mero sofá. Hoje são centenas de edifícios, que podem estar em São Paulo ou qualquer outra cidade, onde, além dos bons, há condomínios envelhecidos que não oferecem condições confiáveis, cujos apartamentos podem estar em condições de risco.

No caso da laje em morro do Rio, a própria televisão aberta já mostrou como exemplo de criatividade de favelado. A constatação da vista longínqua das praias é sempre bonita, mas os meandros do caminho de acesso e as características da escadaria com a precariedade da segurança, não foram mostrados.

Incrível o efeito da atual tecnologia para se conseguir compras mais baratas, e, curioso, como pouco importa de se estar comprando de pessoas ou lojas intermediárias, que quase sempre nada sabem sobre o que oferecem. Basta que haja um aplicativo com a oferta e tudo pode ser imediatamente negociado sem restrição. O mundo muda rápido, mas tomara a mídia continue noticiando os aprendizados caros, como o caso do apartamento no Chile onde, agindo por tais procedimentos, morreram seis pessoas.

ANTONIO FERNANDES PANIZZA  é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí. E- mail: antonio.fernandes@yahoo.com.br


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