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Apelo ao bom senso

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 17/03/2020 | 05:09

O momento não é para pânico, mas para o bom senso. O novo coronavírus está aí fazendo estragos mundo afora. Autoridades de saúde estão advertindo para os cuidados que devem ser tomados pelos governos e pela população em geral. A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que estamos diante de uma pandemia. O Ministério da Saúde brasileiro, os governos estaduais e os municípios estão em estado de alerta. As recomendações básicas são com a higiene, o contato pessoal e as aglomerações, que devem ser evitadas como forma preventiva de evitar a propagação do vírus.

Num país onde pessoas duvidam da ciência, recusam a redondez da Terra, praticam idolatria irrefletida a líderes políticos e pedem um novo AI-5 sem qualquer pudor, chega parecer normal o ocorrido ontem. Após ter sido o maior propagandeador das manifestações de rua contra os demais poderes da República, Bolsonaro não se fez de rogado. Contrariando as recomendações do Ministério de Saúde do país que governa, o presidente saiu às ruas para se juntar à “galera”.

Conjugando demagogia com falta de responsabilidade, aglomerou-se junto ao seu séquito: contactou-se pessoalmente, abraçou, beijou, manipulou celulares alheios para tirar “selfs”. Dando de ombros para a gravidade do problema, o presidente do país falou para a CNN Brasil e criticou aquilo que chamou de “histeria” gerada pelo coronavírus. Em suma, acrescentou mais um item à sua longa lista de disparates.

Nas manifestações do último domingo deve ser destacada a altivez do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Médico que é, Caiado não hesitou em arrostar a população nas ruas de Goiânia para implorar às pessoas para que dissipassem as aglomerações. Foi ao microfone e, com determinação, voltou a alertar a massa tresloucada para não estar em aglomeração, de modo a evitar a proliferação do vírus. Resultado: fundamentalistas bolsonarianos começaram a vaiá-lo e a xingá-lo. O detalhe é que Ronaldo Caiado é um notório apoiador de Bolsonaro e de seu governo.

O senso de responsabilidade cívica do governador falou mais alto, ao contrário do populismo “nonsense” do mandatário-mor da nação. Caso você também entenda que essa história de coronavírus “não é tudo isso o que dizem”, conforme Bolsonaro afirmou ontem, tudo bem, é um direito seu. Mas não se esqueça que o momento pede bom senso, não obscurantismo.

O bom senso para o momento nos é cobrado pela lei. O Código Penal prevê alguns crimes contra a saúde pública: um deles está no artigo 268, que afirma ser crime “infringir determinação do poder público destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa”. Não sejamos tolos. Tenhamos todos bom senso.

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado, professor da Fadipa. presidente para o Brasil do IPDP e diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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