Opinião

Apoio em tempo de fragilidade

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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE ARTICULISTA
Crédito: divulgação

Conheci-o assim que cheguei ao Jardim Novo Horizonte. Ao se mudar para as proximidades, às vezes parava no portão da Casa da Fonte para me contar sobre os móveis e utensílios domésticos que adquirira. Faz-me bem essa alegria dos simples. Nas manhãs frias de junho, ao observá-lo sentado ao sol na calçada próxima a um serviço, creio que de marmitex, da companheira, considerava, em tempos de pandemia, imprudência a falta de máscara e a exposição na rua para seus quase 80 anos. Foi numa sexta-feira que uma das pessoas que estava em sua casa veio pedir socorro na Casa da Fonte. Contou-nos que ele não passava bem há alguns dias - suspeita da covid-19 -, e que a falta de ar se agravara. Como não possuíam telefone, a Siomara Pezzato, secretária do projeto, de pronto ligou ao SAMU. Não havia viatura disponível no momento. Siomara sugeriu então que o melhor seria uma condução por aplicativo. A Jéssica Carolina de Oliveira, professora de dança, na hora foi para a casa dele. O primeiro veículo, ao pedir que aguardasse em frente à viela, para vir o doente, saiu cantando o pneu. Sugeriu, a Jéssica, que ele caminhasse devagarinho para sair da viela e alcançar o banco do ponto de ônibus. Por certo não perderiam a segunda chance de veículo. Foi de minha mesa que o observei sem cor, caminhando com dificuldade, amparado nos braços da Jéssica. A companheira e a outra senhora iam junto. Não deixou de colocar o chapéu e o paletó de terno. Respeito por si próprio e pela sociedade que reverencia tão pouco os que habitam as distâncias. Não chegaria ao médico de qualquer jeito. A respiração reduzia. Ao observá-lo e por saber de alguns limites físicos dele, imaginei que seria difícil reagir. A pandemia o levou menos de uma semana depois. Entristeci-me com a partida dolorosa dele. Emocionei-me com a imagem da Jéssica, jovem ainda, sustentando o desconhecido para ela, que necessitava de ar e poderia lhe passar o vírus. O Papa Francisco, em seu "Devocional", para três de agosto, ensina a estarmos próximos de quem necessita e a não termos medo de apertar a mão de quem está para deixar o mundo, fazendo-nos sentir que Deus é maior do que a morte e que a última separação é apenas um adeus. Nem tudo é desalento. Ele, sem dúvida, ao chegar ao Céu, tirou o chapéu e disse de sua maneira respeitosa: "Voltei, Senhor!"

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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