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Augusto dos Anjos e O Mecanismo

FERNANDO PELLEGRINI | 24/07/2019 | 07:30

“Vês? Ninguém assistiu ao formidável/Enterro de tua última quimera./Somente a ingratidão — esta pantera — /Foi tua companheira inseparável!”. A quadra inicial de “Versos íntimos”, de Augusto dos Anjos (1884/1914) tornou-se mantra para situações ruins em geral, relembrada por quem as enfrenta.

Na segunda temporada da série “O Mecanismo”, produzida por José Padilha para a Netflix, esses e outros versos do poeta paraibano são lembrados pelo protagonista Marco Ruffo, policial interpretado por Selton Mello. O personagem fictício do ex-delegado recita Augusto enquanto empilha cartas. Com elas forma um gigantesco mosaico representativo da corrupção encenada por políticos e empresários, o “mecanismo” do título, tumor herdado de governos ditatoriais e vivíssimo na agora trintona democracia brasileira. “Eu, filho do carbono e do amoníaco, monstro de escuridão e rutilância”/Sofro desde a epigênese da infância,/A influência má dos signos do zodíaco”. E dá-lhe o poeta da agonia e da negação na voz do obcecado personagem. A escolha dos versos cai bem na interpretação de Mello, e traduz o momento vivido pelo policial a enfrentar dramas pessoais, mergulhado no ambiente intoxicado da cena político-policial da atualidade: “Como um fantasma que se refugia/Na solidão da natureza morta,/Por trás dos ermos túmulos, um dia,/Eu fui refugiar-me à tua porta!/(…) Mas tu não vieste ver minha desgraça”. O desesperançado Augusto dos Anjos acompanha o infeliz Marco Ruffo, personagem que, desconfiado dos que se proclamam redentores, trabalhapela redençãodo país.

Quem quiser conhecer mais o poeta, autor de um único livro, “Eu”, publicado em 1912, pode mergulhar no caprichado volume da Editora José Olympio. Ela exibe em seu catálogo “Toda a poesia de Augusto dos Anjos”, antologia da década de 1970 republicada em 2011. Além dos poemas, traz estudo crítico de primeira: “Augusto dos Anjos, vida e morte nordestina”, do também poeta e ensaísta Ferreira Gullar (1930/1916). O trabalho de Gullar vê a poesia do colega como produto de um universo degradado – a sociedade agrária nordestina na virada do século 19 para o 20, arruinada por sucessivas crises econômicas. Mas não só. Em análise acessível, Gullar disseca os versos e clareia interpretações para autor tão inusitado quanto fascinante. Fica o convite para provar do “encanto incômodo” de sua poesia.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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