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Bandini: Outros jeitos de usar a boca

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI - redacao@jj.com.br | 26/03/2018 | 04:00

Livro de poemas da escritora canadense Rupi Kaur, “Outros jeitos de usar a boca” alia lirismo e contundência de maneira bela e incômoda. Com versos curtos, os poemas surpreendem pela densidade e beleza: “Se já tivesse visto/a segurança de perto/eu teria passado menos /tempo caindo em braços/que não eram”.
Sua escrita presta homenagem à língua de seus ancestrais, o punjabi, na qual também não se distingue letra maiúscula de minúscula e cujo único sinal de pontuação é o ponto final.

Lançado, em 2015, o livro (“Milk and Honey” – leite e mel – no original inglês) saltou logo para a lista dos mais vendidos no Canadá e nos Estados Unidos, fenômeno inusitado por se tratar de poesia. No Brasil, aonde chegou em 2017, em tradução da também poeta Ana Guadalupe, o volume publicado pela editora Planeta já está em sua 18ª edição. O livro traz desenhos produzidos pela própria autora e foi dividido em quatro partes: a dor, o amor, a ruptura e a cura.

Rupi Kaur nasceu em 1992 na Índia e imigrou com sua família para o Canadá, quando a garota tinha 4 anos. Estudou escrita profissional na universidade de Waterloo, na província canadense de Ontário. Vive hoje com sua família (os pais e quatro irmãos) em Brampton, Ontário. Surgiu para o mundo em 2013, quando começou a publicar seus poemas em redes sociais.
Os versos ganharam projeção e tornaram Kaur porta-voz da atual condição feminina. Ao tratar de violência, relacionamentos, abusos, feminilidade, amor, sobrevivência, ela cumpre um dos papéis mais antigos e importantes da arte: o de expressar o que tantos não conseguem externar (muitas vezes sequer reconhecer). “A solidão é um sinal de que você está precisando desesperadamente de si mesma”.

Numa época de corda esticada, em que se numa ponta aparecem mulheres dispostas a se manifestar e a recusar papéis secundários como contingência natural, mas em cuja outra extremidade há gente relativizando violência de matiz variado (“Mas também, com essa roupa, ela tava procurando”; “Mas essa vereadora defendia bandido!”), pois bem, nesta época a voz de Rupi Kaur é bem vinda por sua intensidade e riqueza.
“Às vezes/o pedido de desculpa/não vem /quando se espera/ e quando vem/não é esperado/nem necessário/você chegou atrasado”. “Há uma diferença entre/alguém dizer que/te ama e/de fato/ te amar”. Vida longa e muita inspiração para Rupi Kaur.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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