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Bandini: Por quê ler Manuel Bandeira

FERNANDO BANDINI | 23/04/2018 | 02:27

Esse é o nome de um livro tão despretensioso quanto preciso a respeito do poeta pernambucano. Escrito pelo também poeta e ensaísta Júlio Castañon Guimarães, “Por que ler Manuel Bandeira”, da Editora Globo, é uma preciosidade pela clareza de exposição, ausência de afetação e elegância de estilo. Como se sabe, Bandeira teve sua vida marcada pela convivência com a tuberculose pulmonar na juventude, por restrições de toda ordem (de saúde, financeiras, familiares…), e por uma poesia do cotidiano. Conhecido e autoproclamado “poeta menor”, cuja obra fincou pé tanto na tradição quanto no experimentalismo, o inspirador Bandeira foi um dos principais nomes da literatura de língua portuguesa. Inspirador porque sua produção guiou gente da estatura de Carlos Drummond de Andrade, para citar apenas o exemplo mais conhecido. Até o melindrado e irascível Nelson Rodrigues, mestre do teatro e da crônica, via no poeta e também crítico literário um nome a ser respeitado (Bandeira, diga-se, foi o primeiro a reconhecer a grandeza e inventividade de “Vestido de noiva”, obra-prima de Nelson).

“Poeta menor” no sentido de ser o artista a eternizar não os grandes painéis, mas os pequenos momentos, os instantes fugidios do dia a dia. Com sensibilidade, ele soube transformar o comum em matéria de poesia. Com olhos atentos para observar o sublime e o grotesco, anotou: “Vi ontem um bicho/Na imundície do pátio/Catando comida entre os detritos./Quando achava alguma coisa,/Não examinava nem cheirava: /Engolia com voracidade./O bicho não era um cão,/Não era um gato,/Não era um rato./O bicho, meu Deus, era um homem”.

O poeta afetado pela doença, cuja vida “poderia ter sido e que não foi”. O que mudou constantemente de endereço, a fim de se adequar ao aluguel, e que vizinho do Santos Dumont, no Rio, escreveu: “O aeroporto em frente me dá lições de partir”. Mas que só partiu mesmo seis décadas depois do diagnóstico que lhe alterara o rumo de vida. Aquele que, apesar dos senões, espalhou humildade, talento e beleza. O trabalho de Castañon traça um retrato do artista, baseado no “Itinerário de Pasárgada”, do próprio Bandeira, e traz uma cronologia detalhada de sua vida e obra, além de análises acuradas, em linguagem acessível, de seus versos. “Por que ler Manuel Bandeira” conta boa parte da trajetória de alguém grandioso no seu ofício de vasculhar a miudeza. Evoé, Bandeira!

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


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