Opinião

Brasília desde 1892


Brasília! Mesmo com problemas políticos gritantes, o que se tem como certo é uma tradição em planejamento, iniciada no século XIX, e que mostra um princípio de modernidade escondido, mas mantido sistematicamente desde então. A urbanística moderna surge na Inglaterra nas décadas de 1830 e 1840, com o crescimento das cidades europeias provocado pela indústria, com a consequente necessidade de mão de obra, ocasionando o acúmulo de populações em condições, absolutamente, abomináveis em Londres. Isso se reflete nos trópicos, quando da avaliação das capitais do Brasil - Salvador e Rio de Janeiro-, Floriano Peixoto (1839 - 1895) determina uma nova área para a mudança da capital. Para isso compõe um time liderado por Louis Ferdinand Cruls, para a ‘Missão Cruls’, em 1892, para fazer um levantamento preciso da geografia e outras caracterizações para fundamentar essa nova capi</CW>tal. O resultado é um livro que documenta esse importante e extenso trabalho científico, (disponível na biblioteca do Senado). Trata-se do primeiro relatório de impacto ambiental brasileiro. Fato de tal importância que esse lugar definido pelo relatório para a capital passa a constar na constituição do país desde o século XIX. Brasília teve sua área planejada muito antes de Juscelino tomar para si a hercúlea tarefa de fazê-lo. Apoiado pelo importante relatório ‘Cruls’ e pela exigência constitucional dessa empreitada, 64 anos depois, ele consolida essa nova ideia com a abertura de um concurso para a nova capital em 1956. Mais famoso ainda pelo projeto vencedor de Lúcio Costa: ‘Brasília, capital aérea e rodoviária’ (COSTA, 1956) Tudo arrojado, tudo moderno! O carro ganha o lugar absoluto na proposta vencedora, contempla a convivência social com as quadras que se repetem em números suficientes para receber os 500 mil habitantes esperados. Densidade impossível de controle. Hoje, a população de Brasília supera 2,9 milhões. Esse espírito moderno tem origem nos planejamentos de Colônias, o que se chamou núcleos coloniais, que no império foram implementados pela ‘Inspetoria Geral de Terras e Colonização, organizada pelo Governo Imperial em 1876’ (Núcleos Coloniais e Construções Rurais, 2008). No estado de São Paulo, Ribeirão Preto foi planejada com um imenso núcleo colonial que se transformou rapidamente na cidade e, depois, na metrópole que é. O ABC Paulista e Jundiaí tiveram seus núcleos muito bem-sucedidos também. Aqui, até hoje, a Colônia é lembrada e foi impulsionadora do desenvolvimento que conhecemos nas indústrias de vinho e cerâmica por exemplo. O pioneirismo moderno de planejamento no século XIX foi fundamental para solução de inúmeros problemas que as cidades já demonstravam e continuaram a ocorrer, porém agora com soluções urbanísticas inovadoras, onde o carro não é mais o protagonista das cidades. EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções.

Notícias relevantes: