Opinião

Brasília tem de restaurar monumentos, e a ética


Palco do desvio de bilhões, que parece que nem a Lava Jato consegue estancar, nos últimos dias, na discussão do STF, pudemos assistir relatos que superam o seriado da Netflix ‘La Casa de Papel’. O cenário da capital do país,que foi chancelada como patrimônio da humanidade em 1987, está significativamente abandonada. O Teatro Municipal de Brasília fechado espera por reformas, os viadutos do eixo monumental que passam por cima da rodoviária estão interditados. São estruturas que vencem grandes vãos com mais de um metro de altura de denso concreto que, em baixo, uma multidão circula usando e trocando de ônibus. Camelôs tomam conta dos espaços de circulação, tomam conta dos passeios de toda a largura que os pedestres dividem com finos ‘apoios’ que seguram a imensa estrutura de concreto interditada sobre suas cabeças. Os lugares de visitação estão controlados em dias certos e o Itamaraty fechado sem prazo para abrir. A torre de televisão, uma espécie de Torre Eiffel de Brasília dos anos 70, interditada e com risco de ruir. Em fevereiro de 2018 assistimos ao vivo o viaduto desabar do ‘eixão’. Na semana passada um novo buraco se abriu em outro viaduto, na L4 Sul. A ponte JK, tão nova, já está com orçamento de R$ 30 milhões para fazer a manutenção das juntas de dilatação negligenciadas até então. Nesse tempo se comenta nos restaurantes sobre os milhares de lugares ocupados por técnicos de 2º e 3º escalão que o governo está demitindo para cumprir os compromissos de campanha com os partidos e outros negócios em que a confiança supera a competência. Brasília precisa de restauro de seus monumentos, de seus pavimentos e da ética. Os cuidados com os patrimônios a cargo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, estão à margem de qualquer interesse do governo na permanência da ‘chancela de patrimônio da humanidade’. Vai saber se o IPHAN vai continuar a existir. Outsiders: meio ambiente e patrimônio histórico são cartas fora do baralho de Paulo Guedes, ministro da Economia.Esquece! Brasília está contaminada por patologias invisíveis que corroem suas estruturas, mas enchem de empregos indicados por políticos que, sem lugar para todos, incham a máquina e não sobra dinheiro para o que precisa. O planalto ardendo, mas às margens do lago Paranoá, ‘tudo verde’, como o Oasis do deserto. EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios.  

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