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Caminhos cruzados

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 06/11/2019 | 07:30

Cinco dias. As histórias se passam nesse intervalo de menos de uma semana na vida dos personagens de “Caminhos cruzados”, de Érico Veríssimo. O romance começa num sábado e segue até a quarta-feira da semana seguinte, entrecruzando as trajetórias de personagens na Porto Alegre da década de 1930. Não há protagonistas nem enredo principal. Há muitas histórias de gente que se conhece, que passa a se conhecer, ou que jamais se conhecerá.

Quando lançado, em 1935, o volume foi bem recebido pela crítica e, apesar da estranheza de sua estrutura sem protagonismos nem desfechos completos — o que, na época, era uma grande novidade –, teve sucesso de público. Houve ataques à obra em razão da contundência do autor.

Quarto romance desse gaúcho de Cruz Alta (sua bibliografia completa tem cerca de quarenta títulos), “Caminhos Cruzados” mostra um escritor experimentando técnicas e criando tipos para compor painéis da vida urbana contemporânea.

Se em outras obras, como o genial “Incidente em Antares”, Veríssimo traça um amplo painel da história brasileira recente, nesse romance ele preocupa-se com a miudeza do dia a dia de personagens sem sobrenome nem reconhecimento (como a irrequieta Fernanda ou o avoado João Benévolo), mas que sobrevivem no território inóspito de relações familiares e sociais. Fala também de outros mais bem-postos, mas que alimentam seu cotidiano de sonhos irrealizáveis (como a trágica Virgínia ou a intempestiva Vera).

O escritor ambientou o livro em dois grandes espaços: as casas pequenas e alugadas da Travessa das Acácias, em que gente miúda rala bastante para sobreviver; e os palacetes do bairro Moinhos de Vento, em que os perrengues – longe de serem irrelevantes -são de outra ordem. Há personagens que transitam nesses dois universos, em trajetórias que confluem.

Dividido em subcapítulos curtos, o livro é de leitura agradável, recheado de acidez. O romancista não perdoa a hipocrisia e o jogo de aparências, ou a crueldade de tantos, assim como despreza arrogâncias de qualquer tipo. Daí o nariz torcido de quem na época o reprovou. E não falta humor em diversas passagens, como na cena da piscina em que o afetado Armênio tenta paquerar Vera, que está de olho em Chinita, que, por sua vez, só quer saber do boa vida Salu.

O livro é daqueles que faz o leitor querer procurar outras obras do escritor. E em Érico Veríssimo há muito para encontrar.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/caminhos-cruzados/

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