Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Carlos Eduardo Pereira: Uma casa de um ferroviário

CARLOS EDUARDO PEREIRA | 16/06/2018 | 06:00

A Companhia Paulista de Estradas de Ferro teve em Jundiaí seu maior escritório. Também era o motivo de empregar bem seus funcionários, que tinham orgulho de estar na “Paulista”. Isso estabeleceu uma vizinhança dos funcionários na área que compreendia o centro da cidade até a estrada de ferro. A rua São Bento foi o caminho principal dos inúmeros funcionários. Morar próximo foi motivo das construções que encheram suas ruas paralelas de casas pequenas, de porta e duas janelas, que são o documento urbano desse tempo de desenvolvimento de Jundiaí.

A relutância em salvaguardar essas casas é impressionante. A arquitetura é tão desvalorizada que mesmo nos Conselhos não são consideradas. Isso precisa mudar. Restam poucas e a prefeitura, o Ministério Público e os órgãos de preservação não consideram relevante isso, que constitui, sim, um conjunto com expressões diversas e vizinhança muito diferente da de nossos dias. Salvar uma ou outra não resolve o conjunto e tentam ludibriar a importância dessas ruas. Constantemente, um movimento de destruição corre impunemente. O resultado é sempre uma tentativa de fazer estacionamentos nesses lotes pequenos e o sucesso é a falta de proteção legal.

MOSTRA FOTOGRAFICA JJ NOS BAIRROS NO MAXI SHOPPINGEDUARDO CARLOS PEREIRA

 CLIQUE AQUI E CONFIRA OUTRAS COLUNAS DE OPINIÃO DOS ARTICULISTAS DO JORNAL DE JUNDIAÍ 

Óbvio que existe proteção. O problema é que falta a manifestação e publicidade dessa importância de preservação, assim como do ponto de vista da Secretaria da Cultura municipal, que essa campanha seja efetivada e sistemática. O Conselho do Patrimônio Cultural, que em seu nome não aparece a palavra “defesa”, está tímido diante desse desafio e sem força para que possa realmente agir e defender. A Constituição fala, em seu artigo 216, que é necessária a identificação e preservação desses bens e muitos outros expedientes. O descaso não é um fenômeno local, é muito ampliado por todos os cantos do país, mas em nossa medida o nosso Conselho identifica e precisa ampliar valores nessas pequenas expressões.

Um reforço jurídico de peso é necessário para amparar essa lei, e precisa se manifestar. Uma gestão eficiente de análise de projetos e intervenções, idem. Hoje, é analisada pelas leis das reformas do código de obras e não pela preservação dos bens. Isso precisa ser revisto urgentemente. Um fato isolado que podemos festejar é que um proprietário aceitou restaurar e usar a casa ferroviária do séc. 19, respeitando suas características. Mesmo estando uma boa parte descaracterizada, o que nos ficou dessas vilas deve ser preservado pelo que podem nos dizer a respeito da história do trabalho e dos trabalhadores da cidade.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/carlos-eduardo-pereira-uma-casa-de-um-ferroviario/
Desenvolvido por CIJUN