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Carlos Henrique Pellegrini: Mulheres pobres

CARLOS HENRIQUE PELLEGRINI - opiniao@jj.com.br | 15/03/2018 | 02:00

Cerca de 35 milhões de mulheres brasileiras, que compõem parte de nossa população mais carente, carregam um histórico de dificuldades clínicas de dar vergonha a qualquer ser humano. Mesmo morando em grandes centros ou na periferia deles, um simples acompanhamento pré-natal transforma-se em autêntico calvário. Comum é chegar aos hospitais públicos com consulta marcada e não ter ninguém para atendê-las, restando voltar outra vez, noutro dia, quem sabe quando. Os resultados do descaso, dentre outros, vão de abortos ao falecimento das gestantes. Às vezes passam anos para se obter o resultados de exames, como o Papa Nicolau, para diagnóstico de câncer de colo do útero.

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No país em que o próprio Ministério da Saúde classifica como inaceitáveis os índices de morte após o parto, mulheres muitas vezes têm de viajar precariamente 60 km para fazer uma mamografia ou esperar meses até conseguir o diagnóstico de um exame de câncer de colo do útero. A integralidade da assistência, como está definida na Constituição, ainda é uma utopia. Os dados do fim de 2015 e início de 2016 mostravam que cerca de 80% dos municípios, por exemplo, não fazem diagnostico do câncer de mama. Excetuando a saúde reprodutiva, foco da preocupação do Estado, não avançamos quanto às doenças decorrentes do estresse e mudanças de hábitos da mulher. Uma das falhas mais comuns é a enorme indicação pelos médicos de pílulas anticoncepcionais e hormônios injetáveis para contracepção. Reflexo do descaso da década de 1990. Neste século, as coisas mudaram um pouco.

Entre os avanços está o Pacto de Mortalidade Materna e o compromisso firmado agora pelo Ministério da Saúde em reduzir as mortes por câncer de colo do útero e de mama. Feministas afirmam que a proposta na teoria é um primor, mas está longe de ser colocada em prática. Há um “abismo” entre o que é preconizado pela política e o que é feito nos municípios. É relativamente simples combater os índices de morte da mulher depois do parto. Em 2016, o índice de mortes após o parto foi de cerca de 39 por 100 mil nascidos vivos. Em países desenvolvidos, essa taxa varia entre 6 e 20 mortes por 100 mil nascidos vivos. Em época de Operação Lava Jato, concluímos que não falta dinheiro, faltam políticas sérias, políticos honestos e povo atento. “Deitado eternamente em berço esplêndido”… Não chegaremos em lugar algum.

CARLOS HENRIQUE PELLEGRINI é professor universitário e diretor de Gestão Empresarial e de Sucessão Familiar da Maxirecur Consulting / pellegrini@maxirecur.com.br


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