Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Carlos Pellegrini: As chuvas de março

CARLOS HENRIQUE PELLEGRINI - opiniao@jj.com.br | 08/03/2018 | 04:30

Culpar o fenômeno “La Niña” pelas últimas chuvas que resultaram em desabrigados, feridos e mortos é um absurdo descabido. A intensificação do fenômeno é consequência do desequilíbrio ambiental e não a causa. O homem é o causador e as emissões gasosas descontroladas fazem com que autênticas “trombas d’águas” sejam cada vez mais frequentes, assim como a ocupação irregular autorizada ou tolerada pelo governo são os principais responsáveis por tais tragédias. Por esses dias estamos sendo castigados por chuvas torrenciais, submersos por água e lama. Em centros como São Paulo, morre-se afogado e de sede ao mesmo tempo. Mesmo com tantas chuvas, nossa capital está na iminência de racionamento de água potável. Não existem redes de transmissão para todos. Esse é o retrato da incompetência e irresponsabilidade do poder público em gerir a ocupação urbana organizada e administrar os recursos hídricos.

ARTICULISTA CARLOS HENRIQUE PELLEGRINIAs últimas chuvas foram responsáveis por dezenas de mortes e milhares de desabrigados, várias cidades em estado de emergência, encostas desabando, pontes ruindo, congestionamentos monstruosos, afogamentos, soterramentos, doenças etc. Na cidade de Petrópolis, choveu 250 milímetros numa só noite e cerca 350 milímetros no mês todo, quando a média mensal deveria ser de 85 milímetros – cada milímetro de chuva equivale a 1 litro por metro quadrado. Uma quantidade brutal de água, 250 milhões de litros por quilômetro quadrado. Em Porto Alegre choveu numa noite 70% da água de todo mês, trazendo caos urbano, mortes e centenas de desabrigados. É só um dos muitos casos ocorridos. Nossa civilização necessita de cidades menos concentradas e sem a impermeabilização por asfalto ou concreto. Há de se desenvolver projetos urbanísticos que inibam a formação das megalópoles e suas grandes ilhas de calor. Nossos representantes devem criar com urgência políticas públicas de desenvolvimento urbano sustentável que diminuam as emissões gasosas e os resíduos urbanos, respeitando assim as áreas de mananciais e as margens dos rios.

Impossível? Espero que não, caso contrário a situação a cada dia poderá piorar, construindo autênticos infernos urbanos que irão do deserto à inundação no mesmo dia. Outras civilizações desapareceram por questões muito próximas, como por exemplo os maias, que por conta do desrespeito aos lençóis freáticos geraram grandes pestes que os dizimaram.

CARLOS HENRIQUE PELLEGRINI é professor universitário e diretor de Gestão Empresarial e de Sucessão Familiar da Maxirecur Consulting / pellegrini@maxirecur.com.br


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/carlos-pellegrini-as-chuvas-de-marco/
Desenvolvido por CIJUN