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Carros fartos, cidades sofridas

ANTONIO FERNANDES PANIZZA | 26/11/2019 | 05:01

Numa ilha, a saturação do espaço urbano é perceptível porque a borda d’água é um limite que não deixa dúvida. Quando em Fernando Noronha, fiquei sabendo que, dentre os poucos proprietários de carro da Ilha, para ter um novo deveria tirar de lá o que possuía. Quero crer que ainda seja assim mesmo porque sem uma regra rigorosa a saturação será insuportável e a deterioração do meio construído inevitável.

No continente, a ampla extensão territorial ilude a todos pela impressão de que o espaço disponível é ilimitado. No entanto, as cidades aqui também são como ilhas e, para efeito de sua saturação, seu perímetro deveria ser delimitado por uma linha passando pelo final das vias urbanas. Embora importante o equilíbrio entre espaço e carro, é claro que nenhum prefeito vai determinar a quantidade máxima de veículos em sua cidade, indo contra o interesse da indústria automobilística que não aceita cortes em sua produção, e desagradando a voraz e interminável vontade dos consumidores.

Antes de buscar uma mitigação do sofrimento decorrente dos ‘Carros Fartos Cidades Sofridas’, vale lembrar a imprópria alteração de regra da Prefeitura na gestão anterior, que impôs usos com áreas desiguais em ruas vizinhas e iguais, decisão agravada pelo desprezo ao tamanho das edificações ali existentes. A atual gestão procura corrigir.

A difícil tarefa do urbanismo em conseguir um equilíbrio na ocupação do território pede medidas complexas, e as de trânsito são relevantes para ajudar a moldar os usos às transformações havidas. Isto leva à decisão que pode considerar a necessidade maior de estacionar frente à de transitar.

O que se nota é a busca de exagerada agilidade no tráfego, tomando indevidamente a faixa junto ao passeio, quando ela seria mais útil como estacionamento para o comércio já presente nas casas do local.

Nota-se hoje um esforço dos órgãos técnicos em minimizar o problema ocupando os recuos frontais, enquanto não prejudicados por outro uso impropriamente autorizado pela regra mencionada.

O desejável é um enfrentamento mais intenso em soluções binárias, com condições de aplicabilidade em ruas cuja largura permita estacionamento dos dois lados.

É importante que o projeto urbano leve em conta que a proposta binária deva considerar os efeitos ao longo de ambas as vias, tanto na original como a adotada para o tráfego inverso. Não são poucas as ruas estreitas com duplo sentido de tráfego em velocidade reduzida, e com estacionamento de um só lado.

Com sentido único, a velocidade será semelhante, porém, a nova faixa de estacionamento permitirá, praticamente, a duplicação das vagas.

O urbanismo exige medidas delicadas, mas não há dúvida no caso tratar-se de planejamento para correções necessárias, e que tem efeito saudável nas atividades de comercio e serviço do Município.

ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.

E- mail: antonio.fernandes@yahoo.com.br

ANTONIO FERNANDES PANIZZA
PRIMEIRO PLANO DIRETOR DE JUNDIAI


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