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Chamem os chineses

José Renato Nalini | 08/03/2020 | 05:00

É impressionante a notícia de que a China construiu em dez dias um hospital para mil leitos. Dois dias depois, entregou mais um edifício destinado a abrigar 1500 pacientes da pandemia coronavírus. Como é que se consegue uma façanha dessas? Foram quatro mil trabalhadores, sem esmorecer, com apenas quatro horas de sono. Mas as duas obras estão aí a mostrar que é possível.

Compare-se com o ritmo das obras brasileiras: recebi de um grande empresário a informação de que o setor que menos se modernizou foi o da construção civil. Tudo continua a funcionar naquela velha concepção de que é necessário projetar, fazer cálculos, medir, preparar o terreno, fazer as fundações, caprichar nos alicerces.

Depois, a sistemática segue no modelo antigo: tijolo por tijolo, assentado por um pedreiro, auxiliado por um servente. O lento preparo da argamassa, o ajuste com a pá, a coleta do material que se perde quando se o coloca em excesso. Em seguida, o reboco, a secagem e a pintura. Sem falar nos detalhes dos encanamentos, da fiação, do telhado e do acabamento.
Mas porque os chineses conseguem essa rapidez que para nós parece uma utopia? Disciplina, organização, planejamento e empenho.

Vamos aprender com a China: por que não pedir aos chineses que nos auxiliem a terminar obras paradas? A recuperar milhares de edifícios que, passando por reforma ou retrofit, atenderiam a milhões de desprovidos de teto?

É preciso aproveitar o ritmo chinês para devolver as ferrovias a um país que cometeu um erro grosseiro – talvez premeditadamente – ao eleger o automóvel como o veículo preferido: a máquina poluente e mortífera que desumanizou as cidades e hoje é dona de todos os espaços.
Podemos aprender também com Lisboa que, eleita a Capital Verde de 2020, vai eliminar o carro de toda a cidade baixa e transformá-la em acesso exclusivo para pedestres.

Há muito a França também privilegiou o pedestre. Em todos os cruzamentos, lê-se “la priorité est le pieton”. Este é humano. O automóvel é máquina cruel. E quem o dirige muitas vezes se esquece de que sua vocação é a de pedestre e se torna parte do instrumento assassino.
Você já teve a curiosidade de verificar quantos pedestres foram mortos no trânsito?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e autor de “Ética Ambiental”, 4ª ed. RT-Thomson Reuters.


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