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Chão de estrelas

ANTONIO FERNANDES PANIZZA | 24/12/2019 | 07:30

Houve tempo que faltava água até mesmo nos apartamentos de luxo em frente ao mar em Copacabana. Lata d’água na cabeça lá ia a Ivani ao térreo onde, nas crises, a fraca pressão só fazia alcançar, e a patroa não podia ficar sem. Ainda bem que não era todo o tempo.

Em compensação o Rio de Janeiro já era a cidade maravilhosa e a silhueta da sua costa inconfundível. Mais sinuosa que atualmente, o contorno se podia fazer em bondes abertos, por vezes em ruas estreitas, mas sempre entre prédios e o mar. Era a década de cinquenta e o aterro que ampliou os bairros do Flamengo e Botafogo ainda não havia sido feito.

Os morros já com algumas favelas, ainda de pouca ocupação, abrigavam quase só quem trabalhava perto. Os costumes, ingênuos frente aos de hoje, inspiravam poesias e canções, em cuja ocorrência se lia até mesmo estrelas no chão, na boa herança de Sylvio Caldas.

Em Copacabana, a avenida Atlântica, estreita, ainda não tinha merecido o notável projeto que a alargou, e aumentou a faixa de areia da bela praia. Muitos turistas buscavam o sol e as ondas pelas manhãs, usavam roupas leves à tarde, às vezes indo aos cinemas Rian ou Metro, precursores de ar condicionado.

E à noite não faltavam programas com grandes cantores como Dalva de Oliveira, Dick Farney e outros. Já era muito visitado o Corcovado, Pão de Açúcar, Maracanã, Jardim Botânico, dentre os tantos locais da bela cidade.

O tempo foi passando com crescimento em todas as direções, rumo à Barra da Tijuca na costa sul, Niterói pela grande ponte construída, e ganhando intervenções valiosas, como a urbanização no aterro do Flamengo, que além do belo paisagismo abrigou obras relevantes como o Museu de Arte Moderna e o Monumento aos Pracinhas, este carinhosamente apelidado pelos Cariocas de “Muleta de São Pedro”.

Embora não mais Capital Federal o espírito alegre e hospitaleiro da população continuava, como bem demonstrava nos carnavais, já com o Sambódromo como seu próprio palco.

A modernidade levou progresso tecnológico pra todo mundo, mas também muita mazela, pois todo ele está abrangido pela rota da droga, moléstia infernal (tema merece abordagem própria). Mas no Brasil a dificuldade de se organizar é incrível.

O que nos parece é que com a virada do século os demônios resolveram se assentar no Rio de Janeiro. As favelas se adensaram nas íngremes encostas dos morros, nos baixiosdos cursos d’água, e em extensas áreas poluídas nas bordas da Baia de Guanabara, ou seja, criaram uma extensa teia sobre o território urbano, sem deixar molduras vazias no entorno dos bairros.

Não estamos mais na época dos cancioneiros quando os desafinados ainda não cantavam. Meio século se passou e a hipocrisia dominante nos mantem inerte sobre o que se fazer, e sabendo o que se deve fazer.

Agora todos cantam fartamente, mas parece que ninguém consegue ver poesia nas estrelas. Estas, quando baixas, são verdadeiros meteoritos não provenientes do espaço, mas que quase sempre partem de um morro para alcançar outros. No trajeto o alvo sempre confuso pode não ser alcançado, e o torna “bala perdida”, que, por vezes carrega vida perdida.

Triste sina na vida atual servida de novos confortos e melhores recursos, um simples aparelho na mão nos põe em contato com mundo inteiro, e mesmo assim não sabemos como fazerpara lograr a boa convivência entre todos. E o Rio de Janeiro onde se via o “Chão de Estrelas” em humildes barracos do morro, hoje com os novos motivos de alegria, comoo Parque Olímpico, o Museu do Amanhã, o Porto Maravilha e ainda sua Roda Gigante, não vê como se libertar dos demônios que ali ficaram para tristeza da Cidade e do Estado.

ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí.
E- mail: antonio.fernandes@yahoo.com.br


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/chao-de-estrelas/

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