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Chutando o balde – por Heitor Freddo (06/01/2019)

HEITOR FREDDO | 06/01/2019 | 13:00

Torcedor em Jayme Cintra é sempre tratado como suspeito

Paulista e Red Bull faziam um jogo tenso no segundo tempo. O Galo criava as principais oportunidades para abrir o placar, mas via o time de Campinas levar perigo nos contra ataques. O torcedor acompanhava com expectativa cada lance quando um anúncio feito pelo sistema de som tirou a atenção e mudou o foco temporariamente em Jayme Cintra: “atenção torcedor: por determinação da Polícia Militar, a saída será feita exclusivamente pelo portão 5”.

Foram alguns segundos de cabeças viradas em busca do letreiro onde fica esse setor até um uníssono “aaaah”de descontentamento. O portão na verdade é a menor das saídas do estádio, localizado atrás do gol principal onde fica o vestiário mandante.

A logística criada pela Polícia Militar na estratégia de segurança foi oferecer aos mais de 3 mil torcedores interessados apenas em acompanhar o jogo do Paulista uma pequena porta de saída, forçando quem estava na arquibancada principal um deslocamento desnecessário – já que aquele setor tem um enorme portão que ficou fechado o tempo todo – e aos que se encontravam nas cadeiras cativas, uma longa caminhada. Nesse setor encontravam-se dezenas de idosos, fieis torcedores que acompanham há anos o clube, e que tiveram que atravessar metade do estádio para se espremer em um minúsculo portão. O motivo? A entrada principal era exclusiva para quem estivesse chegando para o jogo de fundo.

O duelo entre Vila Nova e Porto de Caruaru foi acompanhado por menos de 1/4 da torcida presente em Jayme Cintra. Mas pela logística da PM de Jundiaí, o fluxo de entrada no estádio para o jogo de fundo merecia mais atenção do que a saída de milhares de torcedores que acompanharam o time da casa. Enquanto poucos curiosos ainda chegavam a Jayme Cintra, milhares se espremiam em uma fila irracional.

Mas as dificuldades não começaram aí. Antes do jogo do Galo uma fila enorme dava a volta no quarteirão. Poucos policiais faziam uma revista absolutamente minuciosa. Presenciei um senhor de 70 anos ser revistado de tal forma que parecia que ele estaria entrando em uma penitenciária ou, quem sabe, estivesse na lista de terroristas suspeitos do Estado Islâmico. O policial o fez retirar um molho de chaves do bolso e o indagou “por que tantas chaves”, como se insinuasse que aquele fosse um material de guerra disfarçado.

Não é de hoje que o torcedor em Jundiaí é tratado assim. O comando da Polícia Militar em Jundiaí estabelece para todos os jogos em Jayme Cintra uma rigidez só vista em clássicos ou jogos com potencial de risco. Mas aqui qualquer jogo Sub 20 contra o Porto de Caruaru é tratado como um Paulista x Ponte Preta.

A torcida do Paulista não tem histórico de violência. E olha que nos últimos anos o time em campo deu motivos mais que suficientes para revoltar as arquibancadas. Não há registro nenhum de material atirado no gramado, de invasão para agredir torcedor ou qualquer outro ato que justifique tal tratamento. E esses atos não foram evitados porque o torcedor foi impedido de entrar com um rádio de pilhas ou porque sofreu uma revista minuciosa. Eles não aconteceram porque não fazem parte da índole da torcida.

O reflexo natural de um tratamento ruim é o afastamento do estádio. Quando o torcedor passa nervoso ao entrar ou sair de um jogo de futebol na quarta feira ele pensa duas vezes antes de voltar no sábado. Quem perde é o Paulista e o cidadão que só gostaria de ver um jogo de futebol sem precisar se sentir um bandido em potencial.
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