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Chutando o balde – por Heitor Freddo

HEITOR FREDDO | 30/12/2018 | 15:01

Copa São Paulo – curta sem pretensões

A Copa São Paulo chega à edição de número 50 cumprindo o seu principal papel: suprir a nossa carência por futebol. Difícil dizer que ela ainda é a mais importante competição de base num país depois da criação do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil para as categorias de base. O que é indiscutível é que a Copinha é – e provavelmente sempre será – o torneio que mais desperta o interesse do público. Não só pela tradição, mas principalmente por não ter concorrência com jogos profissionais. Por mais interessante que seja um mata mata de base, ele sempre perderá para um jogo de primeira fase do Paulistão – algo que esse ano vai ocorrer a partir do dia 19.

Para o Paulista especificamente esse calendário em nada interfere. O time principal do Galo só entra em campo em abril e até agora não tem nada encaminhado. Ter o Galinho em Jayme Cintra é um sopro de alegria para uma torcida tão carente e sofrida. Foi justamente numa Copinha, em 2017, que nos sentimos pela última vez à altura de nossa história. O Paulista voltou a ser destaque nacional, enfrentando qualquer equipe de igual pra igual. Ironicamente o momento que deveria ser de redenção e recuperação serviu apenas para nos afundar um pouco mais na lama movediça do futebol paulista.

Apesar de ser uma competição charmosa e deliciosa de acompanhar – todo jogo tem cara de decisão e o tempo curto nos provoca uma maratona de bola rolando – existem alguns exageros ao se falar da Copa São Paulo. O principal deles: esse é o futuro do futebol brasileiro. Numa tabela com mais de 100 clubes é evidente que uma enorme parcela daqueles atletas jamais se tornará profissional. Outros tantos irão viver no sub mundo do futebol, intercalando entre torneios inexpressivos – como divisões de acesso do Campeonato Sergipano – e jogos em campeonatos amadores para ajudar a pagar as contas.

Nem mesmo o sucesso em campo é garantia de portas abertas. Qual jogador do time finalista do Paulista em 2017 que já vingou na carreira profissional? Enzo no Goiás e Brayan no Flamengo foram os que mais chegaram perto. Helton / Brendon / Gato continua sendo o mais famoso dos atletas até hoje.

Também não é verdade que na Copa São Paulo temos a chance de conhecer os destaques dos times grandes. Os torcedores já sabem o que esperar de seus atletas. Os palmeirenses já conhecem Papagaio; os corintianos sabem que Fabricio Oya merece uma atenção especial, assim como o jovem Toró no São Paulo. E o que dizer de Yuri Alberto no Santos, que já integra o elenco profissional? A Copa São Paulo para eles é basicamente uma oportunidade para eles se machucarem e atrasar a inevitável subida ao time profissional já no primeiro semestre. E quando eles estiverem “maduros” aos 20 anos, o mercado europeu é o caminho certo. Não dá tempo de aproveitar um craque com a camisa de time brasileiro.

Então qual o objetivo da Copa São Paulo? Poder dizer no futuro que “nomes como Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Neymar passaram por aqui”. Tudo bem que ninguém lembra o desempenho deles, ou como suas equipes terminaram a competição, mas eles estão no livro de registros. E os torcedores vão todos os anos a jogos em horários alternativos contra times desconhecidos na esperança de ver o novo Neymar, o novo Ronaldinho.

Quem sabe no futuro aquele atacante que eu vi na minha cidade não estará vestindo a camisa do Barcelona e orgulhosamente poderemos dizer: “eu vi esse cara em campo”. E assim fabricamos Neíltons na esperança de virarem Neymar.
Uma dica: curta a Copa São Paulo sem grandes pretensões. Ela vale a pena por ser futebol numa época tão ausente de bons jogos. Se der sorte a gente vê o Paulista brilhar ou um novo Neymar aparecer sem pretensões.

 

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