Opinião

Cinema, mas com pipoqueiro na porta


Com o programa para as noites e matinês aos domingos, nossas cidades tiveram por décadas o cinema como um agregador da sociedade. Quando garoto, a sessão ao domingo à tarde era uma missão quase obrigatória, pois os seriados eram ansiosamente aguardados na esperança de que o bandido ‘garra de ferro’ não atingiria o mocinho e este ainda salvaria a mocinha. Circular em volta das poltronas antes da sessão era um meio de flertar as garotas que, nos trajes domingueiros, estavam no auge de sua beleza. Precedia o filme um jornal com os acontecimentos da semana, por vezes mostrando a época da guerra, e quase sempre os belos lances do futebol daqueles tempos mostrados pelo Canal Cem. Nas noites, passar antes pelo Gabinete de Leitura Ruy Barbosa, ou na Pauliceia para um café, ou ainda ver o footing na rua Barão, entre outros percursos, era hábito que precedia a ida ao Politheama, ou aos parceiros mais novos cines Marabá e Ipiranga. Antigo e singelo, o cine Ideal, ao lado do Grêmio, acolhia muitas famílias, que, ao fim da sessão, saiam com o filho dormindo no colo. O que não faltava a nenhum deles era o pipoqueiro junto à calçada frontal do cinema, sempre oferecendo a pipoca feita na hora, além de saquinhos de amendoim e, por vezes, para delírio das crianças, algodão doce. Na simplicidade pitoresca, todos se deliciavam com essa atração de baixo custo e ao alcance de todo público. Com a chegada das boas rodovias ao Estado, a indústria se consolidou na vida paulistana e levou a população de São Paulo a ultrapassar a do Rio de Janeiro. Entretanto, esta como Capital Federal se mantinha sendo o centro cultural do País.Em plenos ‘anos dourados’, que ainda guardavam o romantismo do tempo da guerra, as novas correntes musicais trouxeram a ‘bossa nova’. Era este o clima do coração do jovem, que se deliciava com a rica fase de filmes importados e nossas boas comédias, com Oscarito e Grande Otelo. A alta frequência influía na vida de todos. Lembro-me de ser tão conhecido do lanterninha que, atrasado na faculdade em São Paulo, com a sessão começada ele me levava à poltrona ao lado da namorada. Os anos se passaram e a televisão foi tirando as pessoas das ruas e dos cinemas, e retendo esse público nas casas. O processo foi lento e contínuo, impondo uma agonia duradoura aos solitários e ou apaixonados pelas ruas e cinemas. Lembro-me de uma noite ao sair de sessão, encontrei-me com o amigo Natanael, que foi, como diziam, “o maior revelador de talentos da bola pesada da Terra da Uva”, o futebol de salão. Indagado respondeu: “Não, vou ver este filme outro dia, agora estou neste aglomerado da saída apenas para conversar com amigos e tive o prazer de encontrá-lo”. De fato nosso papo foi bom e fiquei feliz em revê-lo. Hoje, sem os cinemas, creio que a cidade é mais triste, embora todos já tenham encontrado mil meios de se entreter. Mas podem crer, não é a mesma coisa. ANTONIO FERNANDES PANIZZA é arquiteto e ex-secretário de Planejamento Urbano de Jundiaí. E- mail: [email protected]  

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