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Cobras e mosquitos

EDUARDO CARLOS PEREIRA | 13/07/2019 | 07:30

O estado de São Paulo registrou 52 mil casos de dengue esse ano. O inverno parece que deu trégua para novos casos. Os mosquitos e os controles estão hibernando e só serão notícia em novembro/dezembro próximos.

As ocorrências de casos em Jundiaí se espalharam pelas regiões de moradores de baixa renda. Nessa ordem: São Camilo 520 ocorrências, Jardim Novo Horizonte 352, Ponte São João com 116, Vila Aparecida 42 e Almerinda Chaves 23 (de acordo com G1, 2019). Com urbanizações ilegais e impermeabilização incontrolável, o Novo Horizonte têm uma faixa de 7km de extensão por 60 metros de ocupação, formando uma comunidade que se iniciou nos anos 70 no leito da antiga estrada de ferro sorocabana. Igualmente, o bairro vizinho, Almerinda Chaves, está na mesma situação. A visão aérea destes lugares demonstra absoluta impermeabilização destes bairros.

O Concurso de Ideias para o Vale do Rio Jundiaí, organizado pelo IAB de Jundiaí e Prefeitura Municipal, revela em seu edital as maiores preocupações que a cidade está enfrentando. O resultado deste concurso é esperado para se conhecer novas soluções que venham tentar solucionar os problemas gritantes.

Por que o Plano Diretor não tem referências a esse problema? Por que o Plano de Saneamento Básico de Jundiaí não considerou?

Em Jundiaí, urbanizações não estão relacionadas à criadouros do mosquito: a impermeabilização da cidade é a maior vilã! O ciclo dos ovos do mosquito é de dois anos e não existe a possibilidade de ficar todo esse tempo sem chuva, o que torna inviável a erradicação.

As águas da chuva precisam entrar na terra, o que deixa as questões de impermeabilização com uma gravidade maior. Isso só é tratado como as causas de enchentes, não tem relação com a criação do mosquito da dengue.

A impermeabilização da cidade está muito longe de ser regulamentada pelos planos que conhecemos. Essa importância precisa ser invertida, porque resolver somente problemas das enchentes não resolve a erradicação dos criadouros.

Gonzalo Vecina, sanitarista e professor da USP diz: “Nós impermeabilizamos a cidade. Nós urbanizamos. O estado de São Paulo é 96% urbano. Isso é uma festa para o mosquito. Quando tínhamos um país rural, a água ia para a terra (…) hoje é impossível erradicar (o mosquito) por conta da impermeabilização da cidade” (Canal Livre, em 30 de junho de 2019).

A pauta da dengue provavelmente será alterada diante destas constatações. As revisões do Plano Diretor em curso precisam considerar esse panorama, assim como, incluir no Plano de Saneamento Básico as medidas mitigadoras para controle da doença.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios.


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