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Coletivo em luto

MARGARETH ARILHA | 27/05/2020 | 07:00

Cada morte conta, e conta sua vida. As mortes são, ou deveriam ser, sempre uma ruptura que permitisse contar e cantar histórias e, assim, imortalizá-las. Essa é uma forma de elaborar lutos.

Cada morte conta. Conta da singularidade daquela vida, das memórias de seu entorno e de seu tempo, das marcas que deixa na história. Assim é agora com a morte de Jucinete, a Ju, Maria Jucinete Machado, líder feminista, uma mulher que dedicou sua vida a ensinar as mulheres como ganhar saúde e autonomia, refletiu com elas sobre suas sexualidades, suas opções e decisões reprodutivas, sem medo.

Como participante do grupo de mulheres do Coletivo Sexualidade e Saúde refletiu, atuou diretamente, atendeu mulheres, ensinou sobre a transformação de corpos calados, tímidos diante do desconhecimento.

Mostrou que a vida poderia ser diferente. Foi na periferia da zona sul da cidade de São Paulo, que viveu e desenvolveu toda sua militância junto aos grupos de direitos à saúde, à moradia, sempre com o grupo de mulheres do Grajaú, na Casa da Mulher do Grajaú.

Escutou e tratou de mulheres talvez de uma forma muito mais doce e cálida do que tantos e tantas. Sabia escutar e fazer, com muito respeito pelas mulheres. Jucinete se foi, levada pela falta de ar de nossos tempos.

Registro de uma época, resgatar sua vida, seu trabalho e sua memória é central. O Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, idealizado e formatado por Maria José Araújo, onde Ju construiu sua história, sofre com a perda.

Mas sofre também o movimento feminista nacional e global, que por mais de 30 anos defendeu políticas públicas a partir do conhecimento das experiências exemplares e paradigmáticas como a que o Coletivo desenvolveu.

Foi assim que se promoveu e defendeu o direito à saúde integral das mulheres em todas as fases de sua vida.

Ju de fato foi uma das tantas pioneiras do feminismo e também a ela devemos o avanço da construção de consciências das desigualdades nesse país. Que a falta de ar seja passageira e que a vida siga solidária e digna. Que possamos chorar os corpos perdidos, e que nossas perdas sejam símbolos de nossos laços com nossa história e com nossa reconstrução.

Que os lutos indiquem que todas as mortes contam, que não podem ser anônimas, que tem estatuto de vidas humanas, e que devem ser elaboradas individualmente, mas, sobretudo, reinseridas no contexto da vida política deste país.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp.


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