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Coluna do Martinelli: Com aspectos positivos e negativos, o Carnaval vai sobrevivendo

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI | 03/03/2019 | 05:05

O Carnaval é, sem dúvida, a grande festa brasileira. Nesta ocasião, o País é visto praticamente em todo o mundo. Mais do que qualquer outro, o povo sabe fazê-lo de forma marcante e gigantesca, tendo se tornado o seu próprio sinônimo. Muita gente não sabe, no entanto, mas ele é uma celebração muito velha, talvez a mais antiga do mundo.
A raiz de toda essa festividade surgiu há milhares de anos, ligada aos rituais de fertilidade e de mudança das estações. De acordo com Kevin Moloney da National Geographic, “muitos estudiosos a remetem à Lupercália romana, um festival criado para celebrar a chegada da primavera que se transformou num período de orgias e de lutas de gladiadores. A Lupercália foi considerada pecaminosa pelos primeiros cristãos, mas os fundadores da Igreja não conseguiram erradicá-la. O jeito foi transformar os costumes pagãos em festivais e programá-los para antes da Quaresma, o período de 40 dias de jejuns e ritos solenes que precede a Páscoa”.
Alguns estudiosos dos festejos populares afirmam que ele surgiu entre os adeptos do culto à deusa egípcia Íris. Outros especialistas colocam o seu início nas homenagens que os gregos faziam ao deus Dionísio. Há também quem mencione as celebrações romanas, dedicadas a Baco, Luperco e Saturno, divindades brindadas com festas animadas. Tudo o que se sabe é que se constitui numa grandiosa comemoração pública, cujas características foram mudando com o passar dos anos, mas provavelmente ainda é a maior do planeta.
Reúne alegres multidões nas ruas de muitas cidades, leva enormes plateias a assistirem aos desfiles em outras, e, mesmo nas localidades menores, o evento se faz presente em clima de alta e genuína animação. No Brasil, a primeira festa dessa natureza foi em 1641, realizada por iniciativa do governador Correia de Sá e o motivo da comemoração foi a elevação de Dom João VI ao trono de Portugal. Mas nessa época, o povo não participava. Até o século XIX, chamava-se entrudo, que era uma festa de origem açoriana, caracterizada pelas violentas batalhas com farinha, água e fuligem. Desse tempo para cá as brincadeiras se modificaram, surgindo os blocos fantasiados, os carros alegóricos e os cortejos de escolas de samba.
É também uma época na qual algumas pessoas deixam de lado os seus problemas e suas situações sociais, para viverem sonhos e fantasias, adquirindo caráter de folia. “O carnaval afasta os pobres de sua vida cotidiana”, diz o médico Hiram Araújo, pesquisador da história do carnaval carioca. “É algo que eleva suas vidas.” Por conta dessa circunstância, também se evidenciam ilusões e muita irreverência.
Por outro lado, seus ingredientes de malícia e transgressão de certas regras, foram substituídos por outras posturas. E hoje a coisa está bem diferente do passado. Ao lembrarmos os carnavais de outras épocas, o fazemos com doçura dos saudosos tempos passados. As fantasias eram mais originais, as músicas alegres e bem elaboradas. O clima era muitas vezes romântico e até namoros e casamentos surgiram de encontros carnavalescos.
E com aspectos positivos ou negativos, o Carnaval vai sobrevivendo. A esperança é que os blocos populares resgatem a simplicidade e ingenuidade das comemorações populares, afastando as circunstâncias consumistas que o cercam, voltando os salões a terem bailes envolventes, com músicas que efetivamente encantem e animem, sem modismos chulos e pré-concebidos, recuperando a espontaneidade que durante muito tempo o caracterizou em nosso país. É preciso deixar de ser espetáculo para ressurgir como uma festa sadia, da qual todos indistintamente participem e brinquem, invertendo até como outrora, papéis sociais e pessoais.

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI


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