Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

COLUNA DO MARTINELLI: CRISTAL CHOPP, KI-CHÁ E AS ALEGRES NOITES DO ANOS 70 EM JUNDIAÍ

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI | 07/04/2019 | 05:01

Vale destacar que nos anos 70, a cidade de Jundiaí contou com um local propício a reuniões de pessoas de todas as idades que nele encontravam aspectos que os agradavam, fosse na área gastronômica, fosse na convivência social e ainda na artística. Falo do Cristal Chopp que se localizava na Rua do Rosário ao lado do Credi Nino, num espaço atualmente ocupado por esse importante estabelecimento comercial de nossa cidade.
Os seus proprietários eram os mesmos arrendatários de “A Paulicéa”: os irmãos Arthur e Alcides Fachini, Moacir Duarte, Geraldo Bussi e João Agg (Zico) que criaram ambientes especiais no novo restaurante. Na parte de cima, funcionava uma concorrida lanchonete. Abaixo, um restaurante com palco. Conseguiram transformá-lo numa importante casa de espetáculos que trouxe alguns dos nomes mais importantes da música popular brasileira para apresentações constantes, normalmente de quinta a sábado. Entre eles, Cauby Peixoto, Orlando Silva, Dóris Monteiro, Noite Ilustrada e Joel de Almeida.
Alguns desses sócios do estabelecimento eram visionários e iluminados, pensavam para frente. Naquela época ainda não era comum a contratação de assessores de imprensa e eu, mesmo com pouca idade, acabei ocupando essa função para divulgar os shows que se realizavam, dividindo minhas funções com a de redator do Jornal de Jundiaí. Tive momentos marcantes, anunciando os espetáculos na imprensa e convivendo proximamente dos artistas que os realizavam.
O Cristal movimentava a noite jundiaiense que ainda contava com o “Ki-chá” do jornalista Celso Francisco De Paula, quase ao lado do Cristal e que ocupava os fundos de um prédio onde hoje é uma loja de sapatos, tendo um corredor como entrada. Ele chegou a trazer uma orquestra para realizar concerto naquele local, considerado urbanisticamente irregular, mas aconchegante. Muitas vezes íamos aos dois no mesmo dia.
Era um tempo muito bom pois andávamos nas ruas de madrugada sem quaisquer problemas de segurança, o que propiciava boas e alegres reuniões de amigos, principalmente criando frequentadores habituais e pessoas que gostavam da noite, como os saudosos Picoco Bárbaro e Prof. Antonio Coelho, ambos permanentemente aptos a debaterem temas polêmicos e às vezes, amenos. O que valia mesmo eram os encontros amistosos.
Lembro-me de uma passagem interessante. Duas respeitadas professoras de piano moravam no Edifício Rosário, ao lado do Cristal Chopp e reclamavam do barulho que os espetáculos causavam, mesmo nunca passando de meia-noite, o mais tardar. Contrataram um advogado para tentar impedir a realização deles, objetivando que a Prefeitura retirasse o alvará de funcionamento. Cientes de que elas gostavam muito do consagrado cantor Gregório Barrios, este passou a ser um dos mais requisitados artistas a frequentarem a casa por iniciativa dos proprietários – pelo menos uma vez por mês. Com um detalhe: nos seus shows, as duas eram convidadas especiais e sentavam-se na primeira mesa próxima do palco. Por esse motivo, foi celebrado acordo entre as partes, sem maiores traumas.
Certa vez o cantor Luiz Américo que fazia sucesso com a música “Camisa Dez” e presença constante nos programas dominicais de Silvio Santos foi contratado para se apresentar no Cristal e chegou com duas horas de atraso, tendo sido impedido de cantar em função do horário avançado. Foi num programa dominical de TV e criticou fato, alegando quebra de contrato (que era justa). Resultado: houve uma grande divulgação a favor do estabelecimento em função de se reconhecer as regras sobre respeito aos frequentadores e ao sossego público.
Resgata-se um pouco da história da cidade nos anos 70, que tinha uma vida noturna relativamente movimentada e ao mesmo tempo, repleta dos encantos daquela época, inclusive até o de maquiar alguns atos para não cair nas malhas do regime militar, principalmente os jornalistas que estavam sempre juntos, mesmo atuando em empresas diversas.
Uma época áurea, encantada e carregada de muito simbolismo, pois continuou a revolução etária surgida nos anos 60, relevando-se ainda a qualidade das obras artísticas do período, criativas, belas e ricas em conteúdo nas mais diversas áreas.

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/coluna-do-martinelli-cristal-chopp-ki-cha-e-as-alegres-noites-do-anos-70-em-jundiai/
Desenvolvido por CIJUN