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COLUNA DO MARTINELLI: Maternidade e poesia, tudo a ver!

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI | 12/05/2019 | 05:01

O mês de maio, há tempos, vem se caracterizando por uma forte celebração: o Dia das Mães. Também pudera. Falar mãe evoca poesias, encanto, ternura e muito amor, principalmente das mulheres que fazem da criação a oportunidade consciente de promover o ser humano em todas as dimensões e de anunciar ao mundo que os valores humanos e os verdadeiros princípios ainda são e continuarão sendo base de uma sociedade coerente e justa.

Efetivamente, a capacidade de amar das pessoas é sempre alvo de respeito e admiração, notadamente pelos atributos que pressupõe: doação, abdicação, afeto e persistência. No entanto, a maternidade ainda é mais venerada, pois além de superar essas características, revela-se num dom natural de vida, que fortalece a união dos casais, estrutura a instituição da família e se firma como o aspecto principal da dignidade feminina. Tanto que, se para uns, “ser mãe é padecer no paraíso”, para outros, bem mais realistas, trata-se de uma missão mesclada de alegrias, dores, renúncias e felicidade. No entanto, ser mãe é vivenciar tudo isso e muito mais, e não é fácil traduzir em palavras o que se passa nas profundezas de seu coração.

Nessa trilha, deveríamos atentar ao sentido simbólico dessa data comemorativa, muitas vezes apagado pelos seus ímpetos consumistas. Infelizmente, a sociedade enfatiza mais os aspectos materiais, do que os próprios valores que a celebração deveria ensejar. Tal circunstância vem se revelando num ciclo anualmente repetido que tenta nos absolver a ponto de nossa única preocupação se restringir à compra de um presente.

E a sua própria história contradiz essa alienante circunstância. Foi o presidente Getúlio Vargas que, através do Decreto 21.366 de 05 de maio de 1932, criou oficialmente o Dia das Mães no Brasil, atendendo a iniciativa da Associação Cristã de Moços de Porto Alegre, inspirada em Anna Javis que o havia lançado nos Estados Unidos. Mas a sua história se inicia na Grécia Antiga, quando a data era comemorada em setembro, início da primavera, como homenagem a Rhea, “mãe dos deuses”. Em 1660, passou a ser invocada na Inglaterra, no quarto domingo da Quaresma.

No entanto, somente após a luta desenvolvida pela americana, visando fortalecer os laços familiares, surgiu como festa especial. Em 26 de abril de 1910, conseguiu realizar a primeira comemoração no Estado de Virgínia e, em 1914, o governo a unificou no segundo domingo de maio. Em poucos anos, mais de 40 países já a haviam adotado e em 1923, depois de observar que ela havia se transformado em motivo de lucro para os comerciantes, Anna entrou com processo para cancelar a celebração, sem sucesso. Assim, os apelos consumistas geraram arrependimento na própria criadora do evento.

Devemos, portanto, apegar-nos nos gestos concretos que motivaram o surgimento dessa festividade. E hoje, no domingo que lhes é dedicado, reverenciemos todas as mães, de diferentes povos, raças e culturas, não só pela constante eloqüência de gestos autênticos, como pela imensa sensibilidade e permanente devotamento, inerentes ao poder materno que naturalmente traduz uma história de habilidade insuperável de desprendimento e profunda compreensão do ser humano como obra-prima do Criador. Trata-se de um dia de reflexão sobre a maternidade, de glorificação à vida, de silêncio, de memória das tantas mães que faleceram, enfim, algo que possa fortalecer as motivações da criação dessa data e de desmascarar o quanto ela é explorada comercialmente.

HOMENAGEM
Em homenagem a essa data solene, invocamos CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: “Porque Deus permite/ que as mães vão se embora?/ Mãe não tem limite,/ é tempo sem hora,/ luz que não se apaga/ quando sopra o vento/ e a chuva desaba,/ veludo escondido,/ na pele enrugada,/ água pura, ar puro,/ puro pensamento./ Morrer acontece/ com o que é breve/ e passa/ sem deixar vestígio./ Mãe, na sua graça,/ é eternidade./ Por que Deus Se lembra/ – mistério profundo –/ de tirá-la um dia?/ Fosse eu rei do mundo/ baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca,/ mãe ficará sempre/ Junto do seu filho/ e ele, velho embora,/ com a mãe ao lado,/ será pequenino/ feito um grão de milho”.

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI


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