Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Coluna do Martinelli: Reis Magos, rica tradição que ainda prevalece

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI | 06/01/2019 | 08:00

Maria Lúcia, minha irmã, já revelando sua competência e sensibilidade como artista-plástica, todo mês de dezembro montava um belo presépio na sala de minha casa. Era tão detalhista que comprava serragem na loja “Irmãos Fillipini Ltda.” e tingia parte dela de verde para usar como grama. Muitos vizinhos iam nos visitar e em especial, para verem os enfeites natalinos, entre eles, a D. Nenê Paes e suas irmãs Duta e Juquita, professoras célebres de piano de nossa cidade.
No dia primeiro de janeiro, o Sr. Guido Pelliciari, que morava próximo do Cine Politheama, costumava distribuir para as crianças “boas festas” com notas novinhas de cruzeiros que traziam as figuras de Pedro Álvares Cabral (1,00), Duque de Caxias (2,00) e Barão de Rio Branco (5,00). Ele também ia à minha residência ver a decoração. Jaciro Martinasso, cuja casa ficava na esquina da Rua Barão com a Rua Secundino Veiga era outro que mantinha esse costume, bem como seu irmão, Antenor Martinazzo, domiciliado ao nosso lado.
Quando chegava seis de janeiro, eram colocados os Reis Magos bem próximos do Menino Jesus. Era motivo de muita tristeza para mim, que como todo garoto adorava o belo período, pois eles prenunciavam o seu fim. É que no dia seguinte as árvores seriam desarmadas; guardar-se-iam as guirlandas, os festões prateados e as imagens do nascimento de Cristo. Parecia que a magia se encerraria, arquivando-se os encantos e os sonhos típicos até o próximo ano.
No entanto, depois de algum tempo entendi a grande importância dessa tradição em suas várias concepções. Do ponto de vista religioso, conforme relata o Evangelho de Mateus, eles chegaram a Jerusalém e ali indagaram o lugar em estava o rei dos judeus que acabara de nascer e cuja estrela, chegaram a vê-la do Oriente, de onde chegavam para adorá-Lo.
Embora sempre apareçam como persas em representações artísticas, seriam reis de reinos não especificados, e no sentido bíblico, representavam as nações que reconheceram no menino o monarca prometido. Seus nomes eram Melquior, Gaspar e Baltazar e os presentes que ofertaram significavam divindade, transcendência e eternidade.
Para muitos, foram os precursores da globalização, pois ao cruzarem inúmeros obstáculos e percorreram diversos caminhos aproximaram povos e culturas diferentes através de um objetivo comum, o de reverenciar o filho de Deus que se fez homem.
Sob o prisma da tradição, a celebração festiva dos Reis Magos carrega consigo uma rica simbologia que felizmente resiste ao tempo e às indiferenças de milhares de pessoas, ultrapassando fronteiras geográficas e culturais. Tanto que em muitas cidades do Interior, mesmo de São Paulo, grupos folclóricos apresentam a denominada “Folia de Reis”. Trata-se de um folguedo popular, cujo termo na cultura, quer dizer representação teatral, cênica; ou seja, é um teatro do povo. A comemoração conta história da viagem e assim como eles, a folia vai, de casa em casa, adorar o Menino Deus no presépio ou lapinha. À frente do grupo vai bandeira, que para os foliões significa o sagrado.
Durante muitos anos em Portugal e na Espanha (e aqui no Brasil e em países de idioma castelhano da América), era no dia seis de janeiro que se fazia a entrega dos presentes às crianças, lembrando as oferendas (ouro, incenso e mirra) que levaram ao Menino Jesus.
Iniciaram um processo de internacionalização enfocado em ideais de justiça, de afeto, de amizade, de tolerância e principalmente do respeito indistinto a todos. Apesar de encerrar o ciclo natalino, a festa dos Reis Magos reafirma as mensagens de solidariedade e fraternidade do Natal, induzindo-nos a vivenciá-las durante todo o ano.

*JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/coluna-do-martinelli-reis-magos-rica-tradicao-que-ainda-prevalece/
Desenvolvido por CIJUN