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COLUNA DO MARTINELLI: Uma época em que quase todas as pessoas se conheciam em Jundiaí

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI | 28/04/2019 | 05:01

Havia um tempo, não tão distante, que todo mundo praticamente se conhecia em Jundiaí. Mesmo de classes sociais distintas, ocorria uma aproximação entre as pessoas, que sem uma convivência maior, ao menos, tinham noção de quem eram. O clima normalmente amistoso se caracterizava pela identidade nas relações.

Na década de 60, por exemplo, a comunidade já estava informada sobre as debutantes de cada ano no Clube Jundiaiense e todos sabiam quais jovens frequentavam faculdades em outros municípios. Até quem comprava o carro do ano era destacado. Lembro-me do saudoso advogado Jaciro Martinasso, o primeiro a adquirir um “Galáxie”, veículo da Ford, sensação à época. Sem perder a simpatia e a simplicidade, mostrava-o abrindo suas portas para os interessados que pedissem, fossem adultos ou crianças. Assim, satisfazia os curiosos sem quaisquer resquícios de vaidade ou de projeção pessoal, apenas por sua maneira especial e amistosa de ser.

Os jovens se encontravam no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa. Não havia internet e as pesquisas para os trabalhos escolares se enfocavam em enciclopédias como “Barsa”, “Conhecer” e “Delta Larousse”. Aproveitava-se também para muitos bons papos, paqueras e conversas críticas sobre o governo militar. Esquentava-se o clima político próximo das eleições da entidade, ocasião em que se destacavam jovens como Norival Roberto Sutti e José Alaércio Nano Damasco, pela oposição e Sérgio Léven, pela situação, este precocemente falecido em decorrência de acidente automobilístico. Por coincidência, os três entraram na Faculdade de Direito da USP (São Francisco) no mesmo ano.

A Associação do Universitário Jundiaiense – AUJ marcava presença e realizava inúmeras promoções divulgadas por José Renato Nalini que iniciava sua coluna no “Jornal de Jundiaí”. O setor industrial fervia e repercutia nacionalmente. Assim, o Brasil inteiro sabia “que se a marca é CICA, bons produtos indica”. O comércio tinha inúmeros filhos da terra com suas lojas, como Credi “City”, Magalhães, Credi Nino, Casas Oliveira, Brandini e “Independência”, entre outras. As profissões liberais exercidas por indivíduos que se consagraram em suas áreas tiveram nomes destacados como Dr. Orandi Congilio (medicina), Luciano Pazinato (odontologia), Mário Galafassi (advocacia) e muitos mais profissionais, que pretendemos indicar em trabalhos futuros, até mesmo com o intuito de resgatar ou manter a nossa história.

O tempo foi passando e com o progresso repentino, muita gente se mudou para cá, notadamente pelas circunstâncias econômicas e pelo bom padrão de vida da cidade. E esse encanto do encontro entre os moradores foi até involuntariamente se acabando. O progresso foi trazendo avanços imobiliários, novas empresas e muitos empregados e empregadores de outros locais, e desta forma, usos e costumes que nos eram até então distantes, começaram a dominar. E com isso, passamos pelas ruas centrais hoje e raramente nos avistamos com alguém que nos propicie qualquer recordação do passado. Durante um longo período, houve resistência de alguns poucos redutos de Jundiaí, como o restaurante e confeitaria “A Paulicéa”, que focava encontro de grandes amigos e flertes memoráveis, mas nem ela existe mais. Nos últimos tempos, manteve um local especial reservado para alguns frequentadores – UTI, entre os quais saudosos o historiador Geraldo Barbosa Tomanick e o sempre alegre e dinâmico Muzaiel Feres Muzaiel.

É óbvio, devemos entender que os avanços são circunstâncias naturais e não podemos contrariá-los, pena de comprometermos o desenvolvimento regular da cidade. Mas que dá muita saudade daquele tempo em que a maioria se conhecia, cumprimentava-se e educadamente se saudava, não resta dúvida. Por isso, invocamos Mário Quintana, “a saudade é o que faz as coisas pararem no tempo”. Por outro lado, “pode-se ter saudades dos tempos bons, mas não se deve fugir ao presente” (Michel de Montaigne). Por essa razão, recordar realmente é viver, mesmo quando fugimos por alguns momentos da realidade.

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí. É presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI


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