Opinião

Conexão domiciliar com o mundo


“Essa noite eu tive um sonho de sonhador Maluco que sou, acordei No dia em que a Terra parou.” A canção de Raul Seixas, de 1977 tornou-se real e eu vi-me em férias forçadas. Assisti a “Tubarão”, “Amor em Tempos de Cólera”, a série da Netflix, “Método Kominski“ (para idosos modernos), li “A Peste“ de Camus. E mais uma lista de filmes e livros disponíveis na internet. Mas uma casa é uma casa, não uma prisão domiciliar. Sei a diferença por trabalhar na área de arquitetura. A notícia de que os “60tões” de setores públicos e privados podem e devem trabalhar de casa surpreende a rotina. No código de obras isso era só pra costureiras. Agora “liberou geral”? (Como dizem nos celulares, rsrs). Periga termos aquela aplicação fácil de que você envia seus dados, suas senhas e seus cartões e depois descobre que foi roubado. Atenção para não ficar sem nada e com dívidas totais. A verdade que não contam é que a estratégia está correta, mas nas condições que temos no Brasil. Outros países tiveram testes rápidos para todos, mas aqui não. Por isso o isolamento social é a prioridade. A casa não é prisão domiciliar, nem tampouco ilha da fantasia. Deve ser um refúgio para o equilíbrio e a solidariedade. Se não temos testes para todos, o número de casos ainda não é exato. Vai haver um baque também na economia – ainda mais na economia popular, ligada à milhões sem direitos trabalhistas, os vulneráveis serão mais ou menos atingidos. Depende de usarmos o refúgio para pensar com calma. A velha canção dizia ainda: “O comandante não saiu para o quartel Pois sabia que o soldado também não tava lá E o soldado não saiu pra ir pra guerra Pois sabia que o inimigo também não tava lá.” EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios

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