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Coronavírus nos programas de governo

EDUARDO CARLOS PEREIRA | 11/07/2020 | 05:23

As pandemias expõem as diferenças sociais. A incidência do novo coronavírus é muito maior nas áreas mais pobres das cidades, onde o saneamento é precário ou não existe, independentemente da arrecadação da cidade. Não se trata mais de um discurso ideológico, é real e tem que ser considerado prioridade nos planos diretores e nas distribuições de gastos da prefeitura, assim como nos programas de governo de candidatos à eleição para prefeitos e vereadores.

O que se verificou com o mapeamento da incidência da covid-19 foi exatamente a explosão nessas áreas vulneráveis e inversamente menor nos bairros de classe média e alta. Precisa ser enfrentada essa desigualdade urbana que amontoa gente e expulsa da periferia ou de cidades vizinhas o contingente que não consegue moradia, com infraestrutura e próxima ao trabalho.

Como fazer isolamento social em uma habitação que moram cinco pessoas que dormem juntas em um quarto? E, se tiver, apenas um banheiro. Os gastos dos prefeitos e vereadores em asfalto são altos, isso para contemplar o Plano Diretor (que dimensiona e manda asfaltar) e o gosto dos eleitores.

O programa “Mais asfalto” em Jundiaí já entregou 802 mil m3 de asfalto em um ano, 110 vias recapeadas e R$ 41 milhões investidos. A arrecadação da cidade no mesmo período foi de 564 milhões de reais, portanto, o asfalto e as novas obras de viadutos e avenidas consomem quase 20% da arrecadação. Mostram essa automobilização como ideia consolidada e inquestionável de desejos e interesses múltiplos ou complexos, desde a década de 60.

Em algumas ruas da Ponte São João, por exemplo, as casas estão com suas paredes no asfalto impecável. A cama do morador é separada do veículo por apenas 15 cm de alvenaria. Não tem, minimamente, uma calçada. O “Vale do Rio Jundiaí”, recente concurso nacional promovido pela Prefeitura e o Instituto de Arquitetos do Brasil, teve esse assunto abordado e expunha problemas e soluções para a impermeabilização, transporte público, mobilidade e as relações da cidade com a valorização e incentivo à produção orgânica comunitária na área urbana da cidade.
Durante o período mais alto de reclusão, foi possível verificar o imenso valor nas nossas avenidas e ruas que antes, em dias normais, tinham tantos veículos que se concentravam em congestionamentos nos semáforos, nas esquinas, cruzamentos e rotatórias. Nesse panorama instiga-se o cuidado para os lugares pobres das cidades, mais atentos nos investimentos necessários e que tentem garantir moradias dignas.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista.


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