Opinião

Covid-19 e as desigualdades


Nos últimos dias tive a oportunidade de assistir a um comentarista de importante jornal televisivo que prometia nunca mais reclamar de motoboys que circulam apressados nas grandes cidades. Afinal, seriam eles, ao lado de um grande contingente de abnegados, os grandes responsáveis por manter atendidos um número substantivo de pessoas que demandam serviços durante a epidemia. De repente pensei em como era curiosa essa imagem: enquanto vemos países inteiros se apresentando totalmente vazios, com pouca ou nenhuma circulação de pessoas, países quase que fantasmas, no Brasil uma elite privilegiada recebe, de diferentes maneiras, compras das mãos daqueles jovens que se arriscam frente a pandemia, para receber remuneração. Pensei então que definitivamente somos o país das desigualdades. No Brasil, já são mais de 20 mil casos confirmado de covid-19, e mais de mil óbitos. O estado de São Paulo, desde 8 de abril foi considerado o epicentro do vírus, já que possuía, aproximadamente, 42% dos enfermos e 53% dos óbitos. Os municípios mais atingidos do estado de São Paulo, de acordo com o Boletim Epidemiológico do Estado de São Paulo são, além da Capital, Santos, Osasco, Campinas, Mogi das Cruzes, Suzano, Taboão da Serra, Barueri, Cotia, São José dos Campos e São José do Rio Preto. Os números impactam por sua ordem de grandeza, velocidade de mudanças e incremento no número de casos. Tudo conforme previsto. A questão até agora não tão discutida entre nós é de como a pandemia circula da riqueza para a pobreza, para a vulnerabilidade e para a desigualdade. Os noticiários começam a mostrar, de maneira evidente, como a doença tem uma cara própria: toma de repente de nossas mãos os mais velhos, mas aos poucos fica evidente que serão os habitantes da pobreza os escolhidos. Nos Estados Unidos, já se anuncia a presença massiva da enfermidade em Manhattan, mas no Bronx, bairro predominantemente constituído por pobres negros e hispanos. Aqui, por exemplo, no Amazonas se faz presente, mas sobretudo em áreas indígenas, vulneráveis e desprotegidas. As possibilidades de prevenção total não estão dadas para as camadas mais vulneráveis da população, que circula sem informação adequada, sem recursos financeiros, sem sequer ter espaços preparados para seu fim. Desigualdades em tempo e espaço. Sem eira e sem beira. MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp.

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